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segunda-feira, 5 de março de 2012

Salário Modesto


                 Van Grogue não era calçada portuguesa, aquela obra de arte feita para ser pisada, mas a população de Tupinambicas das Linhas cria que para ser feliz deveria melindrá-lo sempre.
        Essa mania, de calcar o bêbado, nascera com a vovó Bim Latem a chefe de gabinete do prefeito Jarbas, o caquético testudo, espalhando-se ao longo do tempo e pela cidade toda.
        Eu já lhes contei inúmeras passagens sobre a tal vovô Bim Latem. Ela era fã de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira; quando entrou para o funcionalismo público – onde trabalhou durante cinco anos e já está aposentada há cinquenta -, comprou com o primeiro salário que recebeu toda a discografia dos artistas.
        Por ter o Van Grogue uma desavença com Luisa Fernanda, Célio Justinho que envolveu também o prefeito Jarbas, o vereador Fuinho Bigodudo e o deputado Tendes Trame, a vovó Bim Latem desejou, com todas as suas forças morais, poderio econômico e tráfico de influência, que o tal pingueiro fosse morar numa barrica a ser instalada em qualquer rua da cidade.
        Numa das reuniões que aconteceram ao redor da piscina de Luisa Fernanda e Célio Justinho, onde também faziam churrasco e ensaiavam as apresentações da Banda Funileiros do Havaí, a vovó teria dito sobre o futuro do Van de Oliveira:
        - Vai morar na rua entre os cães; de lá “meterá o pau” em nós e em nossas obras administrativas. Quando ouvir um sino sentirá vontade de perambular pelas vias, becos e vielas.  Esse catinguento terá muita sorte se alguém se compadecer dele e o tirar da sarjeta.
        Apesar de todo esse sortilégio lançado contra Van de Oliveira, a justiça agiu antes, tendo descoberto falcatruas imensas nas licitações da prefeitura tupinambiquense.
        Jarbas, sua mulher, Fuinho Bigodudo e até mesmo Tendes Trame, tiveram de explicar na polícia como conseguiram tamanho acúmulo de bens móveis e imóveis, com os salários modestos que recebiam.
        Para muitos a carreira política desses senhores havia chegado ao fim.

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O Ensaio

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Usando a Tecnologia




                                                 - Olha, o que eu sei é que esse Van Grogue é meio louco, não dá pra confiar nele. – disse com firmeza o Pery Kitto jogando no chão um pouco de pinga, daquele seu segundo copo de cana, naquela manhã de sábado no bar do Maçarico.
                    Ernesto Mail que já bebericava a cerveja geladíssima, aproveitando a onda maledicente que se iniciava emendou:
                    - O cara corria atrás do pai armado com faca. Você quer o quê? As bocas de Matilde comentavam que quando esse demônio era criança xingava a mãe, porque lá na escola diziam que ele tinha a cabeça grande e era muito feio.
                    Maçarico ao perceber que a ventania iniciara, tirou do ombro o guardanapo branco e, alisando o balcão, na periferia do local onde os bebedores depositavam os copos, pigarreou ligando em seguida o rádio.
                    - Mas você não pode acreditar: no dia em que o E.C. 7,5 de Novembro ia jogar a partida do título, nós os mantenedores dessa honrosa instituição tupinambiquense, o famoso bar do Maçarico, combinamos uma caravana de torcedores do bairro que rumaria a pé, num bloco compacto, para o estádio.   Pois não é que essa figura energúmena, conhecida como Van Grogue ia na frente, sozinho, enquanto que todo mundo seguia atrás? – martelou Zécílio Demorais o proprietário do Diário de Tupinambicas das Linhas.
                    - Não, mas ele queria dar uma de gostoso, de importante. Só porque foi jogador de futebol, achava que podia ir mais depressa que os outros. E olha que queria até indicar as ruas, o trajeto. – concluiu Pery Kitto.
                    - Não sei o que esse cara tem na cabeça. Ao invés de arrumar um emprego, trabalhar como todo mundo faz, fica nessa de induzir o povo contra o Jarbas. Por que não vai assentar tijolo, bater aquela massa esperta, levantar parede? – inquiriu indignado o E. Mail.
                    - O cara é muito folgado. Vai ocupando espaço que não é dele. Não se toca, não sabe que não é bem aceito. Não sei porque não se manda logo. – questionou Zécílio Demorais.
                    - Com isso que ele fazia, era como se dissesse que todo mundo aqui na cidade era burro, que ninguém era capaz de nada. Mas ora veja! – afirmou Pery Kitto, já atordoado.
                    - Eu não sei jogar bola. Mas não aprendi porque precisava trabalhar. Tinha que cortar cana quando era criança. Não é bem assim do jeito que esse cara pensa não. – arrematou Zécílio Demorais ingerindo o último gole de cerveja.
                    - Maçarico do inferno! Manda outra geladíssima pra gente ai, mano! – solicitou já um tanto quanto que embriagado o Pery Kitto.
                    Para o espanto geral, o dono do boteco respondeu, depois de vasculhar, com o olhar de gavião, o interior do balcão refrigerado:
                    - Má notícia moçada! Acabou a alegria. Findou a cerveja.  Ontem a noite programei um telefonema, que faria hoje cedo, para o depósito pedindo outra remessa, mas esqueci. Não sei por que motivo não liguei, pedindo mais mercadoria. – justificou Maçarico.
                    A decepção baixou sobre os bebedores como a chuva gelada, repentina, desaba sobre os transeuntes desavisados.
                      Eles mal tiveram tempo pra deixar escapar um oh, em uníssono, das bocarras boquiabertas, quando entrou com um notebook, debaixo do braço esquerdo, o odiado Van Grogue. 
                    - Mas o que é que você está esperando Maçarico, liga agora pra distribuidora. A gente esperamos. – pediu com carinho o E. Mail.
                    Rendendo-se aos clamores, e temendo perder a freguesia, Maçarico tentou ligar para a empresa fornecedora, mas depois de alguns segundos ele estancou.
                    - E aí? Vai ou não vai? – perguntou com ansiedade o Zécílio Demorais.
                      - De que jeito? Estamos sem telefone. Está mudo.
                    - Como assim? Você deixou acabar o estoque de cerveja justamente no sábado, véspera do primeiro jogo do E.C. 7,5 de Novembro, na primeira divisão? Mas você enlouqueceu Maçarico? Temos que interná-lo na casa transitória com a máxima urgência. Isso é questão de saúde pública. – sentenciou o iradíssimo Pery Kitto.
                    - E ainda por cima sem telefone. Mas é o fim do mundo! É mesmo o final dos tempos. Não dá pra acreditar. Gente! Que absurdo! – indignou-se E. Mail.
                    - Mas que raio de comerciante é você, Maçarico? – quis saber, com os olhos esbugalhados, o Zécilio.
                    - E agora? Vamos ficar assim perdidos, nesse arrabalde, sem cerveja? Não dá pra acreditar nisso. – rebelou-se E. Mail.
                    Observando tudo o que se passava Van de Oliveira Grogue, desconsiderando a reação de frieza, que sua presença causara, quando entrara no recinto disse:
                    - Com licença. Por que vocês não mandam um e-mail para a empresa, solicitando via internet, o pedido?
                    Maçarico, Zécilio Demorais, Pery Kitto e Ernesto Mail paralisaram-se boquiabertos. Ao se entreolharem eles ouviram o que dizia o Grogue:
                    - Olha, eu tenho o notebook e sei como funciona; posso enviar a mensagem. Inclusive para o mundo todo. Vocês querem?
                    Depois de alguns minutos angustiosos, o caminhão do depósito de bebidas encostou defronte o bar, descarregando duas vintenas de caixas de cerveja.
                    - Esse Van Grogue é gente fina. Eu sempre acreditei nisso. – concluiu Zécilio, agora rodeado pelos companheiros que brindavam os bons momentos, com a saborosa alegria recém-chegada.
Texto revisado.
09/08/11

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Micro Terapia



                                              - Eu não contradito quem afirma existir lugares bem melhores pra se morar do que aqui em Tupinambicas das Linhas. – Disse convicto Allan Bança ao se aproximar da mesa onde Van Grogue solitário, degustava a sua primeira cerveja, naquela manhã de sábado.

                    - É claro que tem lugar muito melhor do que aqui.  Só de estar longe do Jarbas, Tendes Trame e desse Fuinho Bigodudo já é uma glória inenarrável. – Respondeu Van de Oliveira, sorvendo um gole generoso da cerveja geladíssima.

                    - Dizem que a sensação de culpa no Tendes Trame, o deputado infiel, é tão intensa que ele faz agora uma nova terapia. – Informou lá de trás do balcão o Maçarico, abaixando o som do rádio.

                    - Ele consultava um doutor que lhe amenizava o remorso, causado pela cobiça, mas logo desistiu, por considerar o sujeito pior do que ele. – Completou Allan Bança, sentando-se à mesa e pedindo, com um gesto, uma cerveja igual a do Grogue.

                    - Ouvi falar que ele pratica agora a tal Micro Terapia. – Continuou Bança. – Ele descarrega suas neuras nos spans, correntes, piadas e pegadinhas, que manda pela internet. Às vezes ele tenta invadir e apagar os arquivos dos seus adversários. E o pior é que apaga mesmo. Deleta até blogs da oposição. O Tendes é fogo!

                    - Mas olha, já que você está falando da educação nessa cidade, deixe que lhe conte o que me aconteceu ontem, sexta-feira. – confidenciou Grogue ao amigo que já ingeria com prazer a bebida.

                    - Fala que nós te escutamos. – Incentivou com ironia o Maçarico, atendendo outro freguês que chegava.

                  - Pois eu vinha caminhando pela Rua Governador Peter King, quando passou por mim uma caminhonete preta que levava, na carroceria, seis crianças. O motorista subiu com o veículo na calçada, facilitando o trânsito para os demais carros na rua, mas travando o fluxo dos pedestres. O camarada desceu, entrou num sobrado, ingeriu o vinho tinto de uma taça cheia, subiu pela escadaria e desapareceu lá dentro. Quando um velhinho passou, se esgueirando entre o para-choque e a parede, uma das meninas disse para as demais crianças: “Esse aí é estuprador. Ele é o Gengis Khan.” Ao ouvirem isso os demais guris soltaram um oh de surpresa. É claro que à noite, durante os telejornais, as notícias sobre Dominique Strauss-Kahn as fariam lembrar o vovozinho que não tinha nada a ver com a história perversa da maluquinha. - Concluiu Grogue, pedindo uma porção de salame fatiado.

                    - Sabe o que acontece seu Van Grogue? – preparou-se para uma palestra o Allan Bança – Acontece que numa família, os problemas de alcoolismo, adultério, loucura, e violência, contra as crianças precisam, pra cessarem, de um bode expiatório. E no caso, escolheram o pobrezinho que passava por ali de bobeira. A paz num lar tumultuado poderia, em tese, ser conseguida quando alguém, que não tem nada a ver com a sacanagem daquela gente toda, pague o pato.

                    Enquanto conversavam uma chuva muito forte caiu sobre a cidade. Houve inundações e desabamentos. Depois de algumas horas a visão do caos entristecia a quase todos.

                    - A todo o momento os políticos se vangloriam dos votos que receberam. Mas nessa hora não conseguem fazer nada. – Lamentou o Maçarico, incontestavelmente apoiado pela freguesia.

 

Mudando de assunto:

Você conhece o Silas, o taxista das famosas?

Veja no vídeo uma atuação do Marco Luque.


segunda-feira, 14 de março de 2011

Os Genéricos


Do alto e segurança de toda aquela sua ciência a doutora Ana Menese foi informada pela secretária, que Tendes Trame, o deputado mais corrupto do estado de São Tupinambos, faria-lhe uma consulta.

- Mas ele já pagou os honorários? – perguntou a psiquiatra, agora casada com o ilustre e também alienista doutor Silly Kone.

- Não pagou ainda, mas ele sempre deixa um cheque na saída – respondeu a moça loura, fechando atrás de si a porta do gabinete.

Ana Menese buscou no fundo da gaveta superior esquerda, daquela sua mesa antiga do consultório, o último relatório, enviado pelo laboratório fabricante dos neurolépticos, que ela mais receitava.

Apesar dos números apontarem para um expressivo aumento dos lucros no semestre, a psiquiatra achava que a sua meta daquele mês, deveria ainda ser expandida. As contas se avolumavam e as comissões recebidas, tanto dos antidepressivos, quanto dos demais psicotrópicos, deveriam também recrudescer.

Depois de ter guardado os papéis, Ana Menese buscou na agenda a confirmação da data do próximo simpósio sobre antipsicóticos, que a levaria a Paris.

A viagem e a estadia seriam financiadas também pelo laboratório, fabricante dos medicamentos, que ela mais receitava no tratamento dos seus pacientes.

Seu devaneio sobre a torre Eiffel foi interrompido pela secretária que lhe informava, via interfone, que o doutor Eugênio Chiptovski estava ao telefone, desejando falar-lhe.

- Mais essa ainda! E a essa hora? – queixou-se consigo mesma, a preclara Menese. Depois, com mais segurança na voz, ela arrematou: - Diga ao meu nobre colega que tenho uma consulta marcada, nesse exato momento, com o mestre Rogerio Abdelho Nascifhoda, e que esta consulta é inadiável.

Ao depor o interfone no gancho, Ana Menese buscou o guia turístico mais recente, comprado momentos antes de vir ao consultório, naquela segunda-feira.

Observando o mapa da cidade Luz e ante o temor de se perder por aquelas ruas, ela acalmou-se dizendo:

- Com o advento desse aparelhinho supimpa, auxiliar dos motoristas, conhecido como GPS, a gente se orienta fácil, em qualquer lugar.

- Doutora! O Tendes Trame acaba de chegar – informou a secretária pelo interfone. Logo em seguida o paciente adentrou a sala aboletando-se na cadeira fixada defronte à médica.

- E ai, como está esse poder? – perguntou a doutora, observando o ar cansado e envelhecido do deputado.

- Ando muito chateado. O Zé Cílio Demorais, você conhece, não é? Pois esse cara vive publicando matérias sobre licitações fraudulentas e eu me sinto atingido por isso. Você compreende? Tudo o que sai no jornal dele, parece que é pra mim.

Tomada por muita compaixão a doutora respondeu:

- Olha, nem tudo o que é dito ou publicado pode se referir a você. Mas acho que no seu caso, creio que estamos diante de um distúrbio conhecido como delírio de referência e precisamos tratar isso. Vou lhe passar uma medicação importante. É de uso contínuo. Você deve tomá-la por toda a vida. E, olha, não serve genérico. Você me entende?

Buscando então o receituário guardado na gaveta, a médica prescreveu os comprimidos, cujas comissões de vendas, pagas pelo laboratório fabricante, a levariam a mais um passeio inesquecível pela Europa.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Perfume

Pior do que ouvir Luísa Fernanda tentando "tirar de ouvido" o hino do Corinthians, naquele teclado obsoleto e sujo, era ver o Pelé vestido com as cores de semáforo, no filme comercial do Santander. Mas desatino maior não havia do que a reação do vereador Fuinho Bigoduda às críticas do Van Grogue.

Como era sabido, em Tupinambicas das Linhas, e em toda a região, o Fuinho Bigodudo era igual a chiclete: quanto mais pisavam-no mais ele grudava no calçado opressor.

E por ter Van Grogue questionado a origem da carteira de motorista do vereador, dizendo ser ele um analfabeto, e por consequência impossibilitado de diferençar os sinais das placas de trânsito, mandou o edil escarafunchar os arquivos da prefeitura em busca dos prováveis débitos do tal cidadão.

Enquanto isso Van Grogue, no bar do Zezinho, alertava aos demais companheiros dos possíveis equívocos que poderia cometer aquele motorista, quando trafegando pelas ruas da cidade, encontrasse pela frente algumas placas, para ele, sem sentido nenhum.

Pois não é que das buscas feitas, nos arquivos da prefeitura, constatou-se que Grogue estava entre os que deviam mais de R$ 10 milhões?

E o quê mais, poderia perguntar o meu nobilíssimo leitor, haveria de fazer o tal parlamentar, objetivando inibir a censura do pingueiro, além de cobrá-lo judicialmente?

Ora, quem detém o poder público, gere também muito dinheiro e como todo mundo sabe, dinheiro compra até consciência. E se tais prodígios são feitos com muita verba, por que não haveria de peitar as almas jornalísticas, atuantes no Diário de Tupinambicas das Linhas?

Pois era dando à opinião pública pistas equivocadas sobre tudo o que compunha a suposta vida vã do Van, que pretendiam os espíritos venais da imprensa tupinambiquense, fazer dele uma persona non grata.

Isso tudo autorizava alguns a desacreditar, inclusive, no ditado que dizia: "A voz do povo é a voz de Deus".

Na verdade, em Tupinambicas das Linhas, a opinião da maioria, a tal "voz do povo", não passava do que queriam os políticos corruptos, usurpadores das verbas públicas. E a voz de Deus não poderia nunca ser a voz dos políticos nefastos da cidade.

Das artimanhas despistadoras do Jarbas, o caquético energúmeno, larápio das verbas ministeriais, que teria usado ambulâncias para trazer junto de si milhões e milhões de reais, incluíam as de fazer rimar, ambulância com melancia, e esta com bumbum arrebitado dançante.

Grogue sabia, e muito bem, que para ser universal era preciso cantar a própria aldeia, sendo sincero, dizendo a verdade, expressando o que ela o fazia sentir, devolvendo a ela o que ela lhe dera. Havia algo injusto nisso?

Para Van o tal Fuinho Bigodudo fora escorraçado do local de onde viera. E por infelicidade, semelhante aos dejetos que se enroscam nas curvas do rio, enroscara-se na cidade a tal figura, permanecendo imiscuída nos assuntos que jamais tivera noção da existência.

A ascensão daquele vulto, quase todo mundo sabia, dera-se por força dos conchavos feitos, há muito tempo, pelo reitor da UNIMERD, a universidade tupinambiquense, cujas mensalidades de seus cursos, representavam o dobro do que ganhariam, por mês, os profissionais formados por ela, e de alguns usineiros exploradores da mão de obra, usada no corte da cana.

Em decorrência dessa loucura, vigia na urbe, sensos morais esquisitos tais como os de valorizar cães mimados em detrimento das crianças pobres.

Era o reinado da seita maligna-do-pavão-louco e seus traficantes de influência, que distorciam a aplicação da justiça.

Mas como inexiste mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe, a loucura e a desonestidade do Jarbas, o caquético, da seita maligna do pavão-doido, e das demais forças do retrocesso, seriam com o tempo, todas diluídas e substituídas, assim como deveriam ser a apreensão pela alegria da sanidade, e a fetidez pelo perfume.

Quem vivesse veria.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Ira Divina

Gelino Embrulhano era um sujeito mentiroso. Além disso, ele tinha o péssimo costume de, nas reuniões dos botecos que frequentava, quando contava seus casos escabrosos, apontar disfarçadamente com as mãos, as pessoas presentes a quem antipatizava.

Numa ocasião quando Embrulhano procurava mimar o meliante furtador de talões de cheques e um Chevette velho, ele parolava assim, no bar do Maçarico, repleto de simpatizantes:

- Imagine, o cara é um infeliz, um coitado, ele bebe porque o pai dele também bebia. Tem gente que não usa de paciência com esses desvalidos da sorte – enquanto expelia suas ideias, Gelino Embrulhano gesticulava dissimuladamente em direção ao Van Grogue.

Van recebia os recados, mas não atinava na motivação, que fazia o tal Embrulhano, envolvê-lo na quizumba, arrumada pelo libertino maledicente louco.

- Pois o cara é gente simples. Um pobre que não sabe a que veio neste mundo velho de meu Deus – continuou Gelino.

- Mas espera um pouquinho ai. Por favor: digam-me se o sujeito por ser débil mental pode fazer o que deseja na comunidade, inclusive furtar um Chevette e talões de cheques – aparteou Maçarico que esfregava, com certa energia, o guardanapo no tampo do balcão.

- É claro que não pode e não deve fazer o que lhe der na telha. Principalmente se tiver consciência de que não age de maneira correta – interferiu Van Grogue já bastante perturbado pelos gestos indicativos do Embrulhano.

- Gente! Vocês não entendem! Não podemos pagar o mal com o mal – implorou Embrulhano.

- Pelo que eu sei a comunidade paga com o bem, as maldades e maledicências que recebe desse patife, há mais de dez anos. E o miserável não se emenda. Assim não dá, assim não pode – reforçou Edgar D. Nall.

- É isso mesmo. Pra que dois pesos e duas medidas? Pau de dá em Chico dá em Francisco. “Ferro na boneca”. O tratante já deu provas de que não se emenda. Se quiser drogar-se que se mude pra bem longe – reforçou Maçarico.

- Imagine se tem cabimento isso: o retardado mental rouba o carro do trabalhador, o talão de cheques do comerciante, boqueja idiotices o tempo todo, e são elas, as vítimas, que precisam de amparo médico. Vá vendo. Que absurdo! – esgoelou Van Grogue tomado pela ira divina.

- Quem dá proteção a esses malefícios é o Jarbas, o caquético. Esses detonadores da comunidade fazem parte do curral eleitoral do prefeito e do deputado estadual Tendes Trame – informou Zé Cílio Demorais, o proprietário do Diário de Tupinambicas das Linhas, que até então se mantivera calado.

O consenso não convenceu Gelino Embrulhano, que no seu íntimo, achava ser preciso dar ao difamador, muito mais do que só bons conselhos ou repassar-lhe os princípios da boa educação.





segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Espantando o Urubu

- Bando de incompetentes! Se perderam pro Van Grogue, me digam, de quem vocês ganharão? – Pery Kitto bastante irritado tentava convencer o time, formado por meninos, de que eles deveriam lutar sem choradeiras.


- Mas eles correm muito. - reclamava um jovem desanimado.

- Olha, veja bem, presta atenção: nem que eu tenha de passar noites inteiras falando na cabeça de vocês, um dia vocês aprendem. Não é com esses corpos moles que vocês vencerão. Assim, não vai não gente. Eu já estou cansado de falar. Mas digo e repito: vou falar e falar até que entendam. Se for preciso passaremos as noites em claro conversando, até que consigam notar que é importante a nossa vitória.

- Mas seu Pery Kitto, eu acho que essa estratégia não dá muito certo não. Já faz uns quatro ou cinco campeonatos que estamos batendo nessa mesma tecla e nada. A gente só se fodemos.

- É que vocês são muito burros. Se fosse no meu tempo já teríamos vencido aquele timeco de vagabundos do Van Grogue. – reforçou Pery Kitto esfregando a camisa 64, na água fria que caia do chuveiro.

- Mas seu Kitto, o senhor não disse que a turma do prefeito ajudaria o time? Até agora não vi ajuda nenhuma! – afirmou o goleiro desamarrando as chuteiras.

- O Jarbas é assim mesmo. Eles prometem, mas não cumprem. Eles só falam em licitação, pontes, e recapeamento de ruas que já têm calçamento. Eles pensam no bolso deles e não querem nem saber de time da periferia.

- Ah, o senhor prometeu que a gente teria ajuda até do deputado Tendes Trame. Mas pelo jeito ele também falhou. – disse choramingando um atacante. – Será que eu vou ter de gritar pra que eles ouçam a gente? – prosseguiu o menino jogando, com raiva, a camisa no banco.

- Eu só quero mais empenho de vocês. Só isso. Vocês são muito fracos. Assim não tem jeito. – ralhou Pery Kitto acendendo outro cigarro no vestiário.

De bermudas cinza, camiseta regata azul e chinelos de couro, o treinador caminhava de um lado pro outro pisando nas poças d´água. Quando o homem notou que as crianças fizeram silêncio ele mandou:

- Eu não quero nem saber. No meu time o cara tem que dizer a que veio. Se não já viu, né? Se não render em campo vai todo mundo bater lata ou puxar carroça. E olha: eu já estou ficando nervoso!

Um dos meninos foi acometido por um acesso de tosse. O cheiro de suor, a umidade e a fumaça do tabaco tornavam o ambiente bastante impróprio para a saúde.

- Vocês só querem saber de paçoca e chicletes. Querem bolacha e refrigerante dos bons, mas na hora de mostrar o serviço, ficam com essa má vontade que dá até nojo. Olha como já estou branco de raiva. Eu já falei: se a gente perder pro Van Grogue vocês vão puxar carroça!

Nesse instante a zeladora fofa do clube, sem se importar se encontraria os meninos nus, entrou no ambiente com um rodo na mão dizendo:

- Ah, seu Pery Kitto, não seja assim tão duro com as crianças. Quem sabe se o senhor não consegue melhores resultados ao mudar um pouco essa rijeza do coração, trocando o tom cruel das palavras, por uma conversa noturna mais suave?

- Não adianta dona Emengarda! Eles só querem ver desenho na TV, comer batatinha frita e pronto! Ninguém tem compromisso com nada. Eu é que tenho de me virar espancando amassado o dia inteiro. – respondeu o homem arfando. E depois apontando para as palmas das mãos disse entredentes:

- Olha como é que está minha mão!

A zeladora serena que tinha os cabelos pretos e longos enrodilhados atrás, num coque, passava o rodo puxando as águas acumuladas no chão. Ela dizia:

- Não adianta o senhor brigar desse jeito com a molecada. Deixa eles brincarem um pouco na rua. Eu vejo que o senhor não dá sossego. O senhor fica em cima dessas crianças como se elas fossem escravas. Isso aqui até parece uma senzala. O senhor quer controlar até o pensamento delas. Que maldade seu Pery Kitto! Veja quanto lamento!

- Eles têm que fazer pro gasto que dão! – reclamava o treinador acendendo outro cigarro.

- Dá uma folga pras crianças seu Kitto. Desaperta um pouco. Olha, cuidado se não espana! – o tom de voz baixo e grave da Emengarda assustou o homem que tentava conter a tosse.

Depois que todos tomaram banho e já vestidos com as roupas comuns, caminhando em direção ao veículo, que os levaria de volta pra casa, perceberam que sobre o muro, defronte ao portão do clube de onde saíam, havia um urubu que os espreitava. Ele mantinha as asas abertas, como se as esperasse secar ao sol.

Pery Kitto nervoso, coçou a cabeça, e num ato incontido atirou no bicho o par de chuteiras que levava nas mãos. Assustado o abutre voou pra longe.

O goleiro que viu seu instrumento de trabalho se perder no telhado reclamou:

- Mas justamente minhas chuteiras, seu Kitto?

Sem dar muita atenção pro menino ele resmungou:

- Depois te dou outra. – Kitto estava satisfeito: perdera as chuteiras, mas espantara o jereba.

Fernando Zocca.









quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Maior Vendedor do Mundo

Virgulão considerava-se o melhor vendedor que Tupinambicas das Linhas jamais tivera em toda sua história. Diziam que o “turco” vendia até geladeira pra esquimó e máquinas de bronzeamento nas praias mais bem frequentadas do Brasil.

O homem se estabelecera na região central da urbe no início dos anos 1940 e muitos apostariam que ainda hoje, época dos computadores, ele seria capaz de vender milhares de máquinas de escrever pras repartições públicas.

- Só se for o Jarbas o responsável pelas compras – dissera mal humorado o Pery Kitto já cansado de ouvir as loas que se faziam ao caixeiro sedentário.

Pery Kitto e Adam Oly bebiam aproveitando a modorra que dominava a manhã da terça-feira ensolarada no bar do Maçarico quando adentrou ao recinto o festejado Virgulão. Ele trazia debaixo do braço uma coleção de partituras de chorinhos.

- E ai, mano, vai ter espetáculo no saguão hoje? – perguntou Pery Kitto ao ver o homenzarrão entrar boteco adentro.

Virgulão pediu uma cerveja ao Maçarico e, sentando-se ao lado dos colegas informou:

- Pretendo montar uma gráfica lá naquele prédio. Imagine que hoje em dia dá o maior lucro fazer talonário de notas fiscais.

- É mesmo? – Adam Oly demonstrava interesse sincero.

- Mas você já tem o seu comércio de relógios de ponto e material pra escritório. O que mais vai querer? – quis saber o Maçarico trazendo a cerveja e abrindo-a à vista do freguês.

- Eu preciso arrumar uma ocupação pro meu filho. Ele tem mania de poeta. Vive escrevendo umas besteiras. Ele tenta levar pro dono do Jornal de Tupinambicas das Linhas, mas eles não publicam. – confidenciou Virgulão.

- Mas o menino escreve muito mal? – quis saber Adam Oly.

- Ah, você sabe né? Vate geralmente carece de parafuso, às vezes de porca e arruela também. Mas não quero contrariar o moleque. Se precisar, eu compro até um jornal pra ele.

- Isso é que é gostar do menino, hein seu Virgulão! – sorriu o Maçarico passando um guardanapo sobre a mesa vizinha.

- Os médicos disseram, quando ele nasceu, que era down, que tinha essa síndrome. Mas eu não acredito. Imagine o Zé Cílio retardado. Nem pensar! – indignou-se Virgulão ingerindo o seu primeiro gole de cerveja.

- Ah, mas você sabe né Virgulão, que essa oposição existente aqui na cidade é coisa de gente das trevas. Essa cidadezinha não deslancha no cenário nacional exatamente por causa da política mesquinha dessa turma do pavão louco, que se aboletou no poder e não deixa mesmo o osso, nem com reza brava. - ensinava Adam Oly.

- Olha Virgulão, você precisa de cuidado pra não ferir as suscetibilidades, se não fica mais difícil driblar o miserê. Entendeu? – aconselhou o Pery Kitto.

- Acho que o menino tem mesmo um parafuso solto quando afirma haver a necessidade de se fantasiar, fantasiar, e fantasiar, criando ilusões pro povo. Será que ele está certo?- a dúvida do Virgulão era sincera.

- Eu acho que é por isso que o Jarbas, o Tendes Trame, Zé Lagartto, Fuinho Bigodudo, vovó Bim Latem e titia Ambrosina conseguem desancar os cofres dos dinheiros do público e ainda permanecerem sem castigo. É a lorota que eles criam que os protege das punições, das garras da lei. Agora imagine você um escândalo público sendo amenizado por gabolices difundidas pelos jornais. Seria o fim do estado. Não sobraria falange, falanginha e muito menos falangeta. – ponderou Pery Kitto.

- Ah, mas o que é de gosto, não deixa mesmo de ser o regalo da vida. Seu eu puder vou dar um jornal pro Zé Cílio. Ele merece. – garantiu Virgulão levantando-se.

- Mas é cedo ainda. Onde vai com tanta pressa? – perguntou Adam Oly.

- Tenho gaiolas e uma população imensa de periquitos no saguão do prédio que comprei. Preciso alimentar os bichos. Faz tempo que não ganham nada. Um abraço pra vocês.

Ao sair Virgulão, com um gesto conhecido, indicou ao Maçarico que anotasse no rol dos seus débitos, a despesa que pagaria no fim do mês.


Fernando Zocca.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Irritando Luisa Fernanda

Luisa Fernanda experienciava momentos difíceis naquele já distante princípio de janeiro. Diziam as más línguas que o banco em que ela trabalhava demitiria muita gente e que ela, considerada funcionária inábil, seria uma das que estavam na lista das demissões.

O estado emocional disfórico predominante na Luisa Fernanda contaminava os que viviam ao seu redor e por isso mesmo, naquela manhã de segunda-feira, Célio Justinho, ao notar os resmungos da parceira, achou melhor não dar-lhe um bom dia com aquele entusiasmo característico de quem tivera uma boa noite de sono.

Justinho lembrou-se que Luisa Fernanda tentava descontar no filho do barbeiro vizinho, os dissabores sofridos com a figura maligna. Realmente na noite passada a mulher, com identidade falsa, passara algumas horas na Internet dialogando com o menino.

Célio Justinho achava que Luisa Fernanda procurava atormentar o garoto para que ele brigasse dentro de casa, punindo dessa forma, o barbeiro malvado.

- Não vai comprar o pão e o leite hoje? – perguntou bastante tensa Luisa Fernanda ao Célio que, depois de escovar os dentes, ligara a TV.

Por ser o Célio dependente da Luísa Fernanda, fazia ele tudo o que ela mandava. E mal pudera acomodar-se para ver os telejornais matutinos, quando sentira os maus humores da mulher que o faziam mexer-se.

- Vai, vagabundo, faça alguma coisa! Você pensa que minha vida lá no banco é fácil? Retardado mental! Faz dois mil anos que tenta tocar o hino do Corinthians e não consegue! Nem pra isso você presta!

Já passava das oito da manhã quando Célio entrou no bar do Maçarico. Num canto Virgulão, o homem que vendera de uma só vez, duzentas e sessenta e quatro máquinas de escrever pra Prefeitura de Tupinambicas da Linhas e que gostava de tocar cavaquinho pra periquito engaiolado ouvir, bebericava da sua segunda garrafa de cerveja.

Célio Justinho ao pegar os pães, embalando-os viu que também entrava no recinto o Van Grogue. Foi então que Virgulão disparou:

- Van Grogue carrapato de capivara tuberculosa; pó de bosta de urubu catinguento; coprofágico inaugural da maior cidade do estado de São Tupinambos. É verdade que você é adepto da coprofagia?

Van de Oliveira já estava atordoado e não pudera evitar o abalo maior que lhe produziu a detonação daquelas palavras.

Van Grogue aprumou-se, tirou um cigarro do maço e, com gesto exagerado, com a mão direita pediu o seu produto preferido. Então ele se voltou para Virgulão e se defendeu:

- Isso tudo não passa de brutalidade dessa gente incompetente. São pessoas paranóides; elas têm delírios de referência; são incapazes de fazer qualquer coisa. Essa turma só sabe falar mal de quem faz. Eles não conseguem produzir nada e por isso inventam essas grosserias pra desqualificar quem provoca a inveja neles. As indelicadezas são ditas pra desmerecer a quem sabe fazer.

Virgulão riu e convidou Grogue para sentar-se ao seu lado.

Célio Justinho pagando o pão e o leite que pegara, saiu apressado. Ele tinha que chegar rápido em casa, antes que esquecesse o que ouvira. Ele precisava contar logo pra Luisa Fernanda que Van Grogue era mesmo um besouro coprófago.
Fernando Zocca.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ouvindo os chorinhos

Tupinambicas das Linhas estava agitadíssima. Circulara a notícia de que um prefeito, colega do Jarbas, o caquético testudo, fora apanhado recebendo propina de um empreendedor.

Logo pela manhã, daquela sexta-feira, Jarbas telefonara pro deputado estadual Tendes Trame e ao vereador Zé Lagartto, convocando-os para uma reunião a portas fechadas, no seu gabinete do paço municipal.

Tendes fora acordado naquele mesmo dia por um telefonema da mentora espiritual do partido, a titia Ambrosina que lhe informara ter sido capturado, “recebendo bola” o prefeito da cidade vizinha a Tupinambicas das Linhas. Ambrosina ressaltara que o preso fazia parte do mesmo partido e que por isso deveriam preparar-se elaborando estratégias defensivas bem boladas, sob pena de verem “a casa cair”.

Depois que desligou o telefone Tendes ainda na cama, resmungou:

- Eu não posso acreditar! Já cedo assim? Primeiro me liga Ambrosina com aquele nhenhenhém infernal, agora o Jarbas. Mas eu já desconfiava que tinha alguma coisa diferente no ar, e que não era das melhores.

Tendes levantando-se, higienizou-se, tomou o café da manhã e convocando o motorista que o servia, durante o tempo em que vigorava o seu mandato parlamentar, seguiu rumo à prefeitura.

Ao se aproximar da sede do poder executivo municipal, Tendes pôde observar que os carros particulares, tanto do vereador Zé Lagartto quanto do prefeito Jarbas, já estavam estacionados ali.

Com aquela fleuma que o caracterizava Tendes, trajando o seu indefectível terno azul pavão, entrou no gabinete onde se reuniam Jarbas e Zé Lagartto. Sentando-se Trame ouviu o que Jarbas dizia:

- Olha essa negadinha que diz ser honesta, na verdade é incapaz de roubar. No fundo essa gente moralista não tem oportunidade pra meter a mão no que está disponível e mesmo que tivesse, não teria coragem. Eu sempre disse que o cara esperto sabe como fazer e depois, se for pego, tem que ter aquele “feeling” pra se livrar solto.

- É! Os caras são honestos porque são burros, ignorantes, incapazes de bolar planos de aliviamento dos dinheiros do público. Como você quer receber votos se não pagar as contas de luz, de água, comprar dentaduras e botijões de gás pros eleitores? Assim, não dá mano; assim não vai. – reforçou Lagartto, com ênfase, os argumentos do prefeito.

- Como podem as sãs cabeças conceber licitações sem engodo, sem um lucrozinho esperto, da hora, num pais onde impera, há séculos a mumunha? – manifestou-se Tendes, com um perceptível mau humor, ajeitando depois a gravata.

- Ah, olha, eu acho que se o cara não souber “meter a mão” ele vem logo com o discurso moralista de que não pode fazer isso, não pode fazer aquilo e piriri-pororó. Você está me entendendo? Qual é? Sempre foi assim. E agora vão querer mudar o sistema? Não é desse jeito não, gente. A banda toca mais solta, mais livre, compreende? – O prefeito estava indignado e demonstrava sentir algum desconforto. Por isso, pelo interfone, mandou que servissem o café.

- Mas por falar em licitação, como ficou a compra dos 200 computadores para a Prefeitura? Indagou Zé Lagartto ao caquético testudo.

- O contrato já está fechado. Temos que efetuar o pagamento. Liguei pro “turco” ontem, mas a mulher dele disse que ele estava num ensaio. – respondeu Jarbas alisando a calva.

- Ele gosta de tocar chorinho, né Lagartto? – interrogou o fofinhoTendes Trame.

- É.O cara pensa que é músico. Formou uma turma que toca bandolim, cavaquinho, pandeiro, violão e flauta. O grupo se mete a ensaiar, durante as tardes dos finais de semana, diante das gaiolas cheias de periquitos verdes, azuis, amarelos e cinzentos. – respondeu o testudo, coçando o olho esquerdo.

- Ele o “turco” tem parentesco com a Luisa Fernanda, a gerente daquele banco, o Brafresco. Dizem que essa mocréia vive tentando tocar o hino do Corinthians de orelhada. Mas que nunca consegue. – informou Zé Lagartto.

- Esse “turco” é amicíssimo do Adam Oly. Lembram do Adam Oly que gostava de remar pilotando aqueles barcos verdes no rio Tupinambicas das Linhas? Então. É ele mesmo. – informou o prefeito.

- Ele é meio boboca. Acredita em tudo o que dizem. E o pior é que sai espalhando a titica por ai igual a essa turma da imprensa marrom. – concluiu Zé Lagartto.

Quando pairou o silêncio entre os dialogantes entrou o garçom que, com muita habilidade, serviu o café aos homens do poder.

- Bom, fiquemos então ligados e cientes de que qualquer vacilo pode trazer consequencias gravíssimas aos responsáveis e ao partido todo. Vocês compreenderam, não é? Bobeou o cachimbo cai. – Disse Jarbas com segurança, tomando o seu café e encerrando logo em seguida a reunião.

O pessoal saiu satisfeito, mas preocupado. As coisas mudavam. Devagar, mas mudavam.


Fernando Zocca.



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As revelações de Adam Oly

Adam Oly foi um dos provocadores mais sutis de Tupinambicas das Linhas. Você já viu aquele tipo de jogador que, durante uma partida de final de campeonato, ao passar perto do adversário, diz já ter saído com a sua mãe ou irmã?

Quase ninguém nota. São imperceptíveis as tentações até o momento em que a vítima volta e desfere uma violenta cabeçada no peito do agressor. A expulsão desfalca o time que pode ser derrotado.

Esse era o “jeitão” de ser do Adam Oly um dos colegas do Van Grogue que vivera até na Inglaterra, onde aprendeu enfermagem. Diziam que o sujeito era perito em tramar estratégias conducentes dos adversários à ruína total.

Ele buscava saber da vida daqueles a quem se propunha danar, utilizando depois as informações nas armações degradantes. É claro que nem sempre seus ardis funcionavam e não eram mesmo raros os casos em que a frustração lhe custava bem caro.

Van Grogue estava numa ocasião no bar do Bafão, o mais famoso de Tupinambicas das Linhas, quando se surpreendeu ao ver Adam Oly que entrava depois de muito tempo sem aparecer na cidade.

- Ora, mas veja quem está aqui, não é outro senão o famoso tocador de violão nas serestas, Adam Oly, que quando era menino gostava de remar, pilotando os botes verdes no rio Tupinambicas das Linhas. – disse esfuziante Van Grogue estendendo a mão em cumprimento ao recém-chegado.

- Que mané famoso nada! – respondeu Oly mostrando timidez e apertando a mão do Grogue.

- Dizem que glamour você tem, mas que só lhe falta o dinheiro, é verdade Adam? – provocou Van.

- Nada disso, meu amigo. – garantiu Oly, puxando uma cadeira e pedindo uma cerveja ao Bafão. – E depois convidando o Grogue - Sente-se comigo aqui.

Van tirou sua garrafa e copo do balcão e se acomodou com o parceiro que há muito tempo não via.

- Mas que novidades nos trazes? Faz tempo que chegaste da Europa? – Van estava ansioso por saber das novidades.

- Que nada. Não estive na Europa. Passei uma temporada na Argentina. Mas como a situação aqui está melhor resolvi permanecer uns dias. – contou Oly sorvendo o seu primeiro gole de cerveja gelada.

- É verdade que você tinha um irmão vereador aqui em Tupinambicas das Linhas e ele possuía tanto poder que conseguia nomear, transferir e destituir até diretores das escolas estaduais? – a pergunta do Grogue fora tão direta e certeira que Oly quase engastou com a cervejinha.

- É verdade. Meu irmão foi vereador e por meio da sua influência política ele podia indicar ou até destituir qualquer professor ou diretor de escola. – respondeu Oly com aquela segurança que o passar do tempo lhe proporcionava. - Você sabe, e eu me lembro muito bem, que houve uma temporada em que o meu mano vereador estava envolvido com quatro eleitores que o encarregaram de induzir o abandono do curso ginasial por um menino filho de um desafeto deles.

- Ele conseguiu? – indagou Grogue bastante interessado ao mesmo tempo em que deglutia um saboroso gole de cerveja.

- Conseguiu. Mas para isso ele teve que remover o cidadão que ocupava o cargo de diretor do ginásio, colocar outro de sua confiança e só depois então, por meio de muita pressão fazer o moleque “espirrar” que nem azeitona na ponta do garfo. Confessou Adam Oly.

- Pô seu irmão era foda hein Oly?

- Ah o cara era fodido, meu. Pois você não sabe que ele fazia até nego vir dos Estados Unidos atrás de mulher aqui no Brasil? – Oly estava empolgado por ter alguém interessado nos segredos do irmão falecido.

- Não me diga! Até isso ele fazia? – Grogue estava atônito.

- Fazia sim. Olha, ele soube durante aquele tempo em que legislava, por meio de um amigo chamado Emílio, que um sujeito lá nos Estados Unidos tinha muita herança pra receber. Soube também que o herdeiro era meio “pancada” e por isso, com uma mulher conhecida dele – do vereador, meu irmão - resolveram atrair a vítima até o Brasil. – desabafou Oly.

- E o herdeiro veio? – perguntou Van Grogue interessadíssimo.

- Veio. Só que a mulher não o recebeu e ele então já sem dinheiro, não tendo onde ficar e nem ter o que comer, permaneceu na rua onde a turma do hospital psiquiátrico o prendeu. Bom, pra resumir a história, o herdeiro enganado morreu depois de uma sessão de eletroconvulsoterapia e seus irmãos receberam todos os seus direitos. É claro que pagaram uma comissão fofa pro meu irmão. - Adam Oly sentia-se feliz por ter compartilhado o segredo.

- Nossa! O cara era foda, mano! – Grogue estava boquiaberto.

- Você ainda não viu nada. Depois eu te conto mais. Agora preciso ir embora. Espero um e-mail importante e pelo horário já deve ter chegado. – Dizendo isso num tom fraternal Adam Oly abraçou Van Grogue com entusiasmo deixando no boteco um clima de espanto.

- Você ouviu a história Bafão? – perguntou Grogue.

- É claro que ouvi. Esse parente vereador do Adam Oly tem muitas semelhanças de personalidade e ideológicas com o Jarbas, Tendes Trame, Zé Lagartto, Fuinho Bigodudo e outros lutuosos de Tupinambicas das Linhas. E é por isso que essa cidade não vai nem pra frente nem pra trás.

- É isso aí. – garantiu Grogue fazendo um brinde à noite que chegava.

Fernando Zocca.





segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O pau da bandeira


Dizer que o povo de Tupinambicas das Linhas era frouxo significava preparar as canelas para uma fuga rápida ou tentar o enfrentamento. Para que isso ocorresse – o confronto - o instigador deveria ser hábil em livrar-se das tijoladas a que estaria sujeito.


Naquela cidade ninguém era tão mole assim. Desde Jarbas, o prefeito caquético testudo, espertíssimo na manipulação dos resultados das licitações, até Tendes Trame o deputado inteligente, que amealhava fundos superfaturando os preços de ambulâncias, todos tinham altas doses de pertinácia.


A tia Ambrosina, velha amiga da vovó Bim Latem e cúmplice nos assuntos das reuniões, nas sedes da Seita Maligna do Pavão Louco, não se cansava de afirmar serem os machos tupinambiquences os mais fenomenais e altaneiros daquela região do Estado de São Tupinambos.


Ambrosina garantia que aqueles homens enormes, com as cabeças ornadas já com os cabelos brancos, de pele alva e muito irritadiços, ao agredirem as crianças às ocultas, não deixavam de ser dignos da hombridade. Afinal, garantia a titia, as violências contra os menores indefesos, serviam de compensação às frustrações causadas pela contenção da ira destinada aos adultos usurpadores.


- Sebe, meu neném – dizia a titia Ambrosina, quando se via rodeada por puxas-saco – antes ver uma criança sendo punida injustamente, em surdina, do que dois homens se estapeando escandalosamente no meio da rua.


E quando alguém lembrava à velha senhora ser provável que o pequeno ser não poderia sequer imaginar os motivos das hostilidades, ela respondia que alguém deveria pagar pelo desconforto material da família. E que fosse sempre uma criança, a sofrer com a loucura dos adultos, pois a repercussão negativa seria menor.


Muitos, porém afirmavam que naquela cidade, a única coisa firme com a qual o povo podia contar era com o pau da bandeira. Ninguém nunca ousaria dizer ser o pau da bandeira um pau mole.


Saiba mais sobre este e outros assuntos no livro MODERAÇÃO escrito por Fernando Zocca e que pode ser adquirido por R$ 37,45 no site http://www.clubedeautores.com.br/.


Na foto acima você vê, em Momento Turístico, a sede da Esalq. Quando voltares a Piracicaba não se esqueça de rever a Esalq. Você não sente saudades?

domingo, 23 de agosto de 2009

A competência dos velhos deitados


Dizem que em Tupinambicas das Linhas concentra-se a maior quantidade de loucos jamais vista em toda a história da humanidade. Os estudiosos garantem que seria decorrência do consumo da água do rio Tupinambos que corta a cidade.


A explicação mais aceita é de que no local onde as águas são coletadas, para o uso da população, elas chegariam com uma condensação de poluentes tão intensa, que influiria na saúde mental dos habitantes da urbe.


O escritor Fernando Zocca conta no livro MODERAÇÃO parte das tramas e dramas que se passaram na cidade mais conhecida do Estado de São Tupinambos.


Você conhecerá as artimanhas dos políticos do local. Jarbas, o prefeito corrupto que manipulava resultados nas licitações, amealhando fortunas que sua família jamais sonhou ter. Tendes Trame o deputado venal, que nas armações com ambulâncias, adquiriu centenas de imóveis na cidade e também o Fuinho Bigodudo, Zé Lagartto e outros vereadores que, desviando recursos públicos fizeram pés-de-meia fenomenais. Diziam as más línguas que alguns velhos vereadores eram tão tunantes que despachavam deitados.


Além dessas figuras recorrentes na política tupinambiquence você saberá quem é a vovó Bim Latem, a chefe do gabinete do Jarbas e a criadora da verdadeira Seita Maligna do Pavão Louco.


Os frequentadores das reuniões noturnas da Seita Maligna teriam como característica marcante agredir moral, sexual e fisicamente crianças indefesas, filhas de desafetos considerados inatingíveis. Os agressores loucos conseguiam abrigo e proteção nas entranhas das sedes onde os membros da Seita Maligna se reuniam.


Você conhecerá também Célia Justinho, Luísa Fernanda a gerente do Brafresco, Gabrielzinho boca de porco e muitos outros que fazem o progresso desse trecho do universo.



(Na foto acima você vê, no momento turístico, a fonte de águas cristalinas da Esalq. Quando voltares a Piracicaba revisite a Esalq. Você não sente saudades?)





MODERAÇÃO
R$37,45
http://clubedeautoes.com.br/