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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ouvindo os chorinhos

Tupinambicas das Linhas estava agitadíssima. Circulara a notícia de que um prefeito, colega do Jarbas, o caquético testudo, fora apanhado recebendo propina de um empreendedor.

Logo pela manhã, daquela sexta-feira, Jarbas telefonara pro deputado estadual Tendes Trame e ao vereador Zé Lagartto, convocando-os para uma reunião a portas fechadas, no seu gabinete do paço municipal.

Tendes fora acordado naquele mesmo dia por um telefonema da mentora espiritual do partido, a titia Ambrosina que lhe informara ter sido capturado, “recebendo bola” o prefeito da cidade vizinha a Tupinambicas das Linhas. Ambrosina ressaltara que o preso fazia parte do mesmo partido e que por isso deveriam preparar-se elaborando estratégias defensivas bem boladas, sob pena de verem “a casa cair”.

Depois que desligou o telefone Tendes ainda na cama, resmungou:

- Eu não posso acreditar! Já cedo assim? Primeiro me liga Ambrosina com aquele nhenhenhém infernal, agora o Jarbas. Mas eu já desconfiava que tinha alguma coisa diferente no ar, e que não era das melhores.

Tendes levantando-se, higienizou-se, tomou o café da manhã e convocando o motorista que o servia, durante o tempo em que vigorava o seu mandato parlamentar, seguiu rumo à prefeitura.

Ao se aproximar da sede do poder executivo municipal, Tendes pôde observar que os carros particulares, tanto do vereador Zé Lagartto quanto do prefeito Jarbas, já estavam estacionados ali.

Com aquela fleuma que o caracterizava Tendes, trajando o seu indefectível terno azul pavão, entrou no gabinete onde se reuniam Jarbas e Zé Lagartto. Sentando-se Trame ouviu o que Jarbas dizia:

- Olha essa negadinha que diz ser honesta, na verdade é incapaz de roubar. No fundo essa gente moralista não tem oportunidade pra meter a mão no que está disponível e mesmo que tivesse, não teria coragem. Eu sempre disse que o cara esperto sabe como fazer e depois, se for pego, tem que ter aquele “feeling” pra se livrar solto.

- É! Os caras são honestos porque são burros, ignorantes, incapazes de bolar planos de aliviamento dos dinheiros do público. Como você quer receber votos se não pagar as contas de luz, de água, comprar dentaduras e botijões de gás pros eleitores? Assim, não dá mano; assim não vai. – reforçou Lagartto, com ênfase, os argumentos do prefeito.

- Como podem as sãs cabeças conceber licitações sem engodo, sem um lucrozinho esperto, da hora, num pais onde impera, há séculos a mumunha? – manifestou-se Tendes, com um perceptível mau humor, ajeitando depois a gravata.

- Ah, olha, eu acho que se o cara não souber “meter a mão” ele vem logo com o discurso moralista de que não pode fazer isso, não pode fazer aquilo e piriri-pororó. Você está me entendendo? Qual é? Sempre foi assim. E agora vão querer mudar o sistema? Não é desse jeito não, gente. A banda toca mais solta, mais livre, compreende? – O prefeito estava indignado e demonstrava sentir algum desconforto. Por isso, pelo interfone, mandou que servissem o café.

- Mas por falar em licitação, como ficou a compra dos 200 computadores para a Prefeitura? Indagou Zé Lagartto ao caquético testudo.

- O contrato já está fechado. Temos que efetuar o pagamento. Liguei pro “turco” ontem, mas a mulher dele disse que ele estava num ensaio. – respondeu Jarbas alisando a calva.

- Ele gosta de tocar chorinho, né Lagartto? – interrogou o fofinhoTendes Trame.

- É.O cara pensa que é músico. Formou uma turma que toca bandolim, cavaquinho, pandeiro, violão e flauta. O grupo se mete a ensaiar, durante as tardes dos finais de semana, diante das gaiolas cheias de periquitos verdes, azuis, amarelos e cinzentos. – respondeu o testudo, coçando o olho esquerdo.

- Ele o “turco” tem parentesco com a Luisa Fernanda, a gerente daquele banco, o Brafresco. Dizem que essa mocréia vive tentando tocar o hino do Corinthians de orelhada. Mas que nunca consegue. – informou Zé Lagartto.

- Esse “turco” é amicíssimo do Adam Oly. Lembram do Adam Oly que gostava de remar pilotando aqueles barcos verdes no rio Tupinambicas das Linhas? Então. É ele mesmo. – informou o prefeito.

- Ele é meio boboca. Acredita em tudo o que dizem. E o pior é que sai espalhando a titica por ai igual a essa turma da imprensa marrom. – concluiu Zé Lagartto.

Quando pairou o silêncio entre os dialogantes entrou o garçom que, com muita habilidade, serviu o café aos homens do poder.

- Bom, fiquemos então ligados e cientes de que qualquer vacilo pode trazer consequencias gravíssimas aos responsáveis e ao partido todo. Vocês compreenderam, não é? Bobeou o cachimbo cai. – Disse Jarbas com segurança, tomando o seu café e encerrando logo em seguida a reunião.

O pessoal saiu satisfeito, mas preocupado. As coisas mudavam. Devagar, mas mudavam.


Fernando Zocca.



terça-feira, 20 de outubro de 2009

Esmeralda? Que Esmeralda?


Quem seria a Esmeralda sempre aludida por Jô Soares no encerramento dos seus programas?


No fechamento da última edição, levada ao ar na madrugada deste 20 de outubro, o apresentador disse ter “adorado a sua bermuda” e que seria ela “transparente”.


Além de Estância no Estado de Minas Gerais, esmeralda é uma pedra semi-preciosa, que teve importância relevante durante os primeiros anos do desbravamento do Brasil. Os Bandeirantes Domingos Jorge Velho, Fernão Dias Paes, Manuel Borba Gato e Jerônimo Leitão vasculhavam o interior do atual Estado de São Paulo, justamente atrás desse tipo de riqueza.


Algumas crônicas da época citariam o fato deles reunirem-se, com seus liderados, na cozinha das habitações em que se preparavam para as longas expedições de busca dos tesouros a serem descobertos?


Quais penas daquele tempo narrariam que durante os preparativos das Bandeiras, eles se alimentariam com pães adormecidos, postos a secar no forno, depois comidos com o café forte, feito na hora?


Além dessas relevâncias todas o que diriam os nossos Bandeirantes Antonio Pedroso, Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera ou "Diabo Velho", sobre o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, que garantiu numa entrevista publicada em 18/10/09 no jornal lisboeta Público, ser a Bíblia “um manual de maus costumes”?


Teria mais do que a ira quem sempre fez a mira, principalmente nas crianças? E os atuais provectos seresteiros, hábeis também na execução das chamadas “modas de viola”, chorinhos e rock and roll, interpretados nos cenários com barcos verdes ou periquitos estridulantes, mandados judiciais, além das antigas alusões às canções da Carmem Miranda, feitas nas calçadas, quem diriam ser a Esmeralda do Jô Soares?


E o dito pintor afamado, conhecedor do Vincent Willem van Gogh, seria mesmo tão adamado?


Na ilustração acima você vê o autorretrato de Willem van Gogh.