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segunda-feira, 5 de março de 2012

Salário Modesto


                 Van Grogue não era calçada portuguesa, aquela obra de arte feita para ser pisada, mas a população de Tupinambicas das Linhas cria que para ser feliz deveria melindrá-lo sempre.
        Essa mania, de calcar o bêbado, nascera com a vovó Bim Latem a chefe de gabinete do prefeito Jarbas, o caquético testudo, espalhando-se ao longo do tempo e pela cidade toda.
        Eu já lhes contei inúmeras passagens sobre a tal vovô Bim Latem. Ela era fã de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira; quando entrou para o funcionalismo público – onde trabalhou durante cinco anos e já está aposentada há cinquenta -, comprou com o primeiro salário que recebeu toda a discografia dos artistas.
        Por ter o Van Grogue uma desavença com Luisa Fernanda, Célio Justinho que envolveu também o prefeito Jarbas, o vereador Fuinho Bigodudo e o deputado Tendes Trame, a vovó Bim Latem desejou, com todas as suas forças morais, poderio econômico e tráfico de influência, que o tal pingueiro fosse morar numa barrica a ser instalada em qualquer rua da cidade.
        Numa das reuniões que aconteceram ao redor da piscina de Luisa Fernanda e Célio Justinho, onde também faziam churrasco e ensaiavam as apresentações da Banda Funileiros do Havaí, a vovó teria dito sobre o futuro do Van de Oliveira:
        - Vai morar na rua entre os cães; de lá “meterá o pau” em nós e em nossas obras administrativas. Quando ouvir um sino sentirá vontade de perambular pelas vias, becos e vielas.  Esse catinguento terá muita sorte se alguém se compadecer dele e o tirar da sarjeta.
        Apesar de todo esse sortilégio lançado contra Van de Oliveira, a justiça agiu antes, tendo descoberto falcatruas imensas nas licitações da prefeitura tupinambiquense.
        Jarbas, sua mulher, Fuinho Bigodudo e até mesmo Tendes Trame, tiveram de explicar na polícia como conseguiram tamanho acúmulo de bens móveis e imóveis, com os salários modestos que recebiam.
        Para muitos a carreira política desses senhores havia chegado ao fim.

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O Ensaio

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Usando a Tecnologia




                                                 - Olha, o que eu sei é que esse Van Grogue é meio louco, não dá pra confiar nele. – disse com firmeza o Pery Kitto jogando no chão um pouco de pinga, daquele seu segundo copo de cana, naquela manhã de sábado no bar do Maçarico.
                    Ernesto Mail que já bebericava a cerveja geladíssima, aproveitando a onda maledicente que se iniciava emendou:
                    - O cara corria atrás do pai armado com faca. Você quer o quê? As bocas de Matilde comentavam que quando esse demônio era criança xingava a mãe, porque lá na escola diziam que ele tinha a cabeça grande e era muito feio.
                    Maçarico ao perceber que a ventania iniciara, tirou do ombro o guardanapo branco e, alisando o balcão, na periferia do local onde os bebedores depositavam os copos, pigarreou ligando em seguida o rádio.
                    - Mas você não pode acreditar: no dia em que o E.C. 7,5 de Novembro ia jogar a partida do título, nós os mantenedores dessa honrosa instituição tupinambiquense, o famoso bar do Maçarico, combinamos uma caravana de torcedores do bairro que rumaria a pé, num bloco compacto, para o estádio.   Pois não é que essa figura energúmena, conhecida como Van Grogue ia na frente, sozinho, enquanto que todo mundo seguia atrás? – martelou Zécílio Demorais o proprietário do Diário de Tupinambicas das Linhas.
                    - Não, mas ele queria dar uma de gostoso, de importante. Só porque foi jogador de futebol, achava que podia ir mais depressa que os outros. E olha que queria até indicar as ruas, o trajeto. – concluiu Pery Kitto.
                    - Não sei o que esse cara tem na cabeça. Ao invés de arrumar um emprego, trabalhar como todo mundo faz, fica nessa de induzir o povo contra o Jarbas. Por que não vai assentar tijolo, bater aquela massa esperta, levantar parede? – inquiriu indignado o E. Mail.
                    - O cara é muito folgado. Vai ocupando espaço que não é dele. Não se toca, não sabe que não é bem aceito. Não sei porque não se manda logo. – questionou Zécílio Demorais.
                    - Com isso que ele fazia, era como se dissesse que todo mundo aqui na cidade era burro, que ninguém era capaz de nada. Mas ora veja! – afirmou Pery Kitto, já atordoado.
                    - Eu não sei jogar bola. Mas não aprendi porque precisava trabalhar. Tinha que cortar cana quando era criança. Não é bem assim do jeito que esse cara pensa não. – arrematou Zécílio Demorais ingerindo o último gole de cerveja.
                    - Maçarico do inferno! Manda outra geladíssima pra gente ai, mano! – solicitou já um tanto quanto que embriagado o Pery Kitto.
                    Para o espanto geral, o dono do boteco respondeu, depois de vasculhar, com o olhar de gavião, o interior do balcão refrigerado:
                    - Má notícia moçada! Acabou a alegria. Findou a cerveja.  Ontem a noite programei um telefonema, que faria hoje cedo, para o depósito pedindo outra remessa, mas esqueci. Não sei por que motivo não liguei, pedindo mais mercadoria. – justificou Maçarico.
                    A decepção baixou sobre os bebedores como a chuva gelada, repentina, desaba sobre os transeuntes desavisados.
                      Eles mal tiveram tempo pra deixar escapar um oh, em uníssono, das bocarras boquiabertas, quando entrou com um notebook, debaixo do braço esquerdo, o odiado Van Grogue. 
                    - Mas o que é que você está esperando Maçarico, liga agora pra distribuidora. A gente esperamos. – pediu com carinho o E. Mail.
                    Rendendo-se aos clamores, e temendo perder a freguesia, Maçarico tentou ligar para a empresa fornecedora, mas depois de alguns segundos ele estancou.
                    - E aí? Vai ou não vai? – perguntou com ansiedade o Zécílio Demorais.
                      - De que jeito? Estamos sem telefone. Está mudo.
                    - Como assim? Você deixou acabar o estoque de cerveja justamente no sábado, véspera do primeiro jogo do E.C. 7,5 de Novembro, na primeira divisão? Mas você enlouqueceu Maçarico? Temos que interná-lo na casa transitória com a máxima urgência. Isso é questão de saúde pública. – sentenciou o iradíssimo Pery Kitto.
                    - E ainda por cima sem telefone. Mas é o fim do mundo! É mesmo o final dos tempos. Não dá pra acreditar. Gente! Que absurdo! – indignou-se E. Mail.
                    - Mas que raio de comerciante é você, Maçarico? – quis saber, com os olhos esbugalhados, o Zécilio.
                    - E agora? Vamos ficar assim perdidos, nesse arrabalde, sem cerveja? Não dá pra acreditar nisso. – rebelou-se E. Mail.
                    Observando tudo o que se passava Van de Oliveira Grogue, desconsiderando a reação de frieza, que sua presença causara, quando entrara no recinto disse:
                    - Com licença. Por que vocês não mandam um e-mail para a empresa, solicitando via internet, o pedido?
                    Maçarico, Zécilio Demorais, Pery Kitto e Ernesto Mail paralisaram-se boquiabertos. Ao se entreolharem eles ouviram o que dizia o Grogue:
                    - Olha, eu tenho o notebook e sei como funciona; posso enviar a mensagem. Inclusive para o mundo todo. Vocês querem?
                    Depois de alguns minutos angustiosos, o caminhão do depósito de bebidas encostou defronte o bar, descarregando duas vintenas de caixas de cerveja.
                    - Esse Van Grogue é gente fina. Eu sempre acreditei nisso. – concluiu Zécilio, agora rodeado pelos companheiros que brindavam os bons momentos, com a saborosa alegria recém-chegada.
Texto revisado.
09/08/11

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Micro Terapia



                                              - Eu não contradito quem afirma existir lugares bem melhores pra se morar do que aqui em Tupinambicas das Linhas. – Disse convicto Allan Bança ao se aproximar da mesa onde Van Grogue solitário, degustava a sua primeira cerveja, naquela manhã de sábado.

                    - É claro que tem lugar muito melhor do que aqui.  Só de estar longe do Jarbas, Tendes Trame e desse Fuinho Bigodudo já é uma glória inenarrável. – Respondeu Van de Oliveira, sorvendo um gole generoso da cerveja geladíssima.

                    - Dizem que a sensação de culpa no Tendes Trame, o deputado infiel, é tão intensa que ele faz agora uma nova terapia. – Informou lá de trás do balcão o Maçarico, abaixando o som do rádio.

                    - Ele consultava um doutor que lhe amenizava o remorso, causado pela cobiça, mas logo desistiu, por considerar o sujeito pior do que ele. – Completou Allan Bança, sentando-se à mesa e pedindo, com um gesto, uma cerveja igual a do Grogue.

                    - Ouvi falar que ele pratica agora a tal Micro Terapia. – Continuou Bança. – Ele descarrega suas neuras nos spans, correntes, piadas e pegadinhas, que manda pela internet. Às vezes ele tenta invadir e apagar os arquivos dos seus adversários. E o pior é que apaga mesmo. Deleta até blogs da oposição. O Tendes é fogo!

                    - Mas olha, já que você está falando da educação nessa cidade, deixe que lhe conte o que me aconteceu ontem, sexta-feira. – confidenciou Grogue ao amigo que já ingeria com prazer a bebida.

                    - Fala que nós te escutamos. – Incentivou com ironia o Maçarico, atendendo outro freguês que chegava.

                  - Pois eu vinha caminhando pela Rua Governador Peter King, quando passou por mim uma caminhonete preta que levava, na carroceria, seis crianças. O motorista subiu com o veículo na calçada, facilitando o trânsito para os demais carros na rua, mas travando o fluxo dos pedestres. O camarada desceu, entrou num sobrado, ingeriu o vinho tinto de uma taça cheia, subiu pela escadaria e desapareceu lá dentro. Quando um velhinho passou, se esgueirando entre o para-choque e a parede, uma das meninas disse para as demais crianças: “Esse aí é estuprador. Ele é o Gengis Khan.” Ao ouvirem isso os demais guris soltaram um oh de surpresa. É claro que à noite, durante os telejornais, as notícias sobre Dominique Strauss-Kahn as fariam lembrar o vovozinho que não tinha nada a ver com a história perversa da maluquinha. - Concluiu Grogue, pedindo uma porção de salame fatiado.

                    - Sabe o que acontece seu Van Grogue? – preparou-se para uma palestra o Allan Bança – Acontece que numa família, os problemas de alcoolismo, adultério, loucura, e violência, contra as crianças precisam, pra cessarem, de um bode expiatório. E no caso, escolheram o pobrezinho que passava por ali de bobeira. A paz num lar tumultuado poderia, em tese, ser conseguida quando alguém, que não tem nada a ver com a sacanagem daquela gente toda, pague o pato.

                    Enquanto conversavam uma chuva muito forte caiu sobre a cidade. Houve inundações e desabamentos. Depois de algumas horas a visão do caos entristecia a quase todos.

                    - A todo o momento os políticos se vangloriam dos votos que receberam. Mas nessa hora não conseguem fazer nada. – Lamentou o Maçarico, incontestavelmente apoiado pela freguesia.

 

Mudando de assunto:

Você conhece o Silas, o taxista das famosas?

Veja no vídeo uma atuação do Marco Luque.


quinta-feira, 24 de março de 2011

Pagando o Mico




                                            Van Grogue quando moço trabalhou na prefeitura de Tupinambicas das Linhas. Ele dizia aos colegas de copo, que era encarregado importante no setor administrativo, mas na verdade era lixeiro.
                    Em 1969, os serviços de coleta de lixo na cidade, eram feitos por trabalhadores contratados diretamente pela prefeitura. Portanto, eles também eram funcionários públicos.
                    Por causa da vida desregrada que levava, bebendo, fumando e alimentando-se mal, Grogue foi acometido pela tuberculose.
                    A irmã dele que era empregada doméstica da professora catedrática doutora Mirthôa, aconselhou-o, diante do emagrecimento, da febre nos finais do dia e da tosse insistente, com a qual expelia catarros cheios de sangue, a procurar o serviço público de saúde.
                    O médico acertou o diagnóstico e Van foi informado que a sua doença era causada por uma bactéria chamada Mycobacterium tuberculosis ou Bacilo de Koch. O doutor ensinou também que antigamente, esse mal era conhecido como peste cinzenta ou tísica pulmonar.
                    Depois de ter chegado em casa, vindo da consulta, Grogue encontrou o roliço irmão Fran que se mostrou desejoso de saber notícias sobre o problema.
                    - Ah, o doutor falou que eu tenho um tal de mico, não sei o que, e isso dá tosse na gente – disse Van.
                    - Então é o mico? – quis saber Fran, o irmão mais fofo.
                    - É. Não sei se é cinzento. Mas é pequeno, tipo bactéria – concluiu Van.
                    - Ah, sei. Pequeno? A gente pode fazer uma simpatia: vamos passar isso pra frente e você sara.
                    No mês seguinte o filho da vizinha, um moleque irrequieto, que não dava sossego pra ninguém, apareceu na cozinha da sua casa, com um mico leão dourado, causando espanto em toda a família.
                    Os pais e demais irmãos, do vizinho agitado, tiveram de comprar telhas, madeiramento e telas para fazer a morada do bichinho.
                    O alvoroço todo provocado foi, por muito tempo, motivo de chacota da doutora Mirthôa e seus irmãos.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Os Genéricos


Do alto e segurança de toda aquela sua ciência a doutora Ana Menese foi informada pela secretária, que Tendes Trame, o deputado mais corrupto do estado de São Tupinambos, faria-lhe uma consulta.

- Mas ele já pagou os honorários? – perguntou a psiquiatra, agora casada com o ilustre e também alienista doutor Silly Kone.

- Não pagou ainda, mas ele sempre deixa um cheque na saída – respondeu a moça loura, fechando atrás de si a porta do gabinete.

Ana Menese buscou no fundo da gaveta superior esquerda, daquela sua mesa antiga do consultório, o último relatório, enviado pelo laboratório fabricante dos neurolépticos, que ela mais receitava.

Apesar dos números apontarem para um expressivo aumento dos lucros no semestre, a psiquiatra achava que a sua meta daquele mês, deveria ainda ser expandida. As contas se avolumavam e as comissões recebidas, tanto dos antidepressivos, quanto dos demais psicotrópicos, deveriam também recrudescer.

Depois de ter guardado os papéis, Ana Menese buscou na agenda a confirmação da data do próximo simpósio sobre antipsicóticos, que a levaria a Paris.

A viagem e a estadia seriam financiadas também pelo laboratório, fabricante dos medicamentos, que ela mais receitava no tratamento dos seus pacientes.

Seu devaneio sobre a torre Eiffel foi interrompido pela secretária que lhe informava, via interfone, que o doutor Eugênio Chiptovski estava ao telefone, desejando falar-lhe.

- Mais essa ainda! E a essa hora? – queixou-se consigo mesma, a preclara Menese. Depois, com mais segurança na voz, ela arrematou: - Diga ao meu nobre colega que tenho uma consulta marcada, nesse exato momento, com o mestre Rogerio Abdelho Nascifhoda, e que esta consulta é inadiável.

Ao depor o interfone no gancho, Ana Menese buscou o guia turístico mais recente, comprado momentos antes de vir ao consultório, naquela segunda-feira.

Observando o mapa da cidade Luz e ante o temor de se perder por aquelas ruas, ela acalmou-se dizendo:

- Com o advento desse aparelhinho supimpa, auxiliar dos motoristas, conhecido como GPS, a gente se orienta fácil, em qualquer lugar.

- Doutora! O Tendes Trame acaba de chegar – informou a secretária pelo interfone. Logo em seguida o paciente adentrou a sala aboletando-se na cadeira fixada defronte à médica.

- E ai, como está esse poder? – perguntou a doutora, observando o ar cansado e envelhecido do deputado.

- Ando muito chateado. O Zé Cílio Demorais, você conhece, não é? Pois esse cara vive publicando matérias sobre licitações fraudulentas e eu me sinto atingido por isso. Você compreende? Tudo o que sai no jornal dele, parece que é pra mim.

Tomada por muita compaixão a doutora respondeu:

- Olha, nem tudo o que é dito ou publicado pode se referir a você. Mas acho que no seu caso, creio que estamos diante de um distúrbio conhecido como delírio de referência e precisamos tratar isso. Vou lhe passar uma medicação importante. É de uso contínuo. Você deve tomá-la por toda a vida. E, olha, não serve genérico. Você me entende?

Buscando então o receituário guardado na gaveta, a médica prescreveu os comprimidos, cujas comissões de vendas, pagas pelo laboratório fabricante, a levariam a mais um passeio inesquecível pela Europa.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Perfume

Pior do que ouvir Luísa Fernanda tentando "tirar de ouvido" o hino do Corinthians, naquele teclado obsoleto e sujo, era ver o Pelé vestido com as cores de semáforo, no filme comercial do Santander. Mas desatino maior não havia do que a reação do vereador Fuinho Bigoduda às críticas do Van Grogue.

Como era sabido, em Tupinambicas das Linhas, e em toda a região, o Fuinho Bigodudo era igual a chiclete: quanto mais pisavam-no mais ele grudava no calçado opressor.

E por ter Van Grogue questionado a origem da carteira de motorista do vereador, dizendo ser ele um analfabeto, e por consequência impossibilitado de diferençar os sinais das placas de trânsito, mandou o edil escarafunchar os arquivos da prefeitura em busca dos prováveis débitos do tal cidadão.

Enquanto isso Van Grogue, no bar do Zezinho, alertava aos demais companheiros dos possíveis equívocos que poderia cometer aquele motorista, quando trafegando pelas ruas da cidade, encontrasse pela frente algumas placas, para ele, sem sentido nenhum.

Pois não é que das buscas feitas, nos arquivos da prefeitura, constatou-se que Grogue estava entre os que deviam mais de R$ 10 milhões?

E o quê mais, poderia perguntar o meu nobilíssimo leitor, haveria de fazer o tal parlamentar, objetivando inibir a censura do pingueiro, além de cobrá-lo judicialmente?

Ora, quem detém o poder público, gere também muito dinheiro e como todo mundo sabe, dinheiro compra até consciência. E se tais prodígios são feitos com muita verba, por que não haveria de peitar as almas jornalísticas, atuantes no Diário de Tupinambicas das Linhas?

Pois era dando à opinião pública pistas equivocadas sobre tudo o que compunha a suposta vida vã do Van, que pretendiam os espíritos venais da imprensa tupinambiquense, fazer dele uma persona non grata.

Isso tudo autorizava alguns a desacreditar, inclusive, no ditado que dizia: "A voz do povo é a voz de Deus".

Na verdade, em Tupinambicas das Linhas, a opinião da maioria, a tal "voz do povo", não passava do que queriam os políticos corruptos, usurpadores das verbas públicas. E a voz de Deus não poderia nunca ser a voz dos políticos nefastos da cidade.

Das artimanhas despistadoras do Jarbas, o caquético energúmeno, larápio das verbas ministeriais, que teria usado ambulâncias para trazer junto de si milhões e milhões de reais, incluíam as de fazer rimar, ambulância com melancia, e esta com bumbum arrebitado dançante.

Grogue sabia, e muito bem, que para ser universal era preciso cantar a própria aldeia, sendo sincero, dizendo a verdade, expressando o que ela o fazia sentir, devolvendo a ela o que ela lhe dera. Havia algo injusto nisso?

Para Van o tal Fuinho Bigodudo fora escorraçado do local de onde viera. E por infelicidade, semelhante aos dejetos que se enroscam nas curvas do rio, enroscara-se na cidade a tal figura, permanecendo imiscuída nos assuntos que jamais tivera noção da existência.

A ascensão daquele vulto, quase todo mundo sabia, dera-se por força dos conchavos feitos, há muito tempo, pelo reitor da UNIMERD, a universidade tupinambiquense, cujas mensalidades de seus cursos, representavam o dobro do que ganhariam, por mês, os profissionais formados por ela, e de alguns usineiros exploradores da mão de obra, usada no corte da cana.

Em decorrência dessa loucura, vigia na urbe, sensos morais esquisitos tais como os de valorizar cães mimados em detrimento das crianças pobres.

Era o reinado da seita maligna-do-pavão-louco e seus traficantes de influência, que distorciam a aplicação da justiça.

Mas como inexiste mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe, a loucura e a desonestidade do Jarbas, o caquético, da seita maligna do pavão-doido, e das demais forças do retrocesso, seriam com o tempo, todas diluídas e substituídas, assim como deveriam ser a apreensão pela alegria da sanidade, e a fetidez pelo perfume.

Quem vivesse veria.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Kadaffi Tupinambiquense

Tupinambicas das Linhas, não era a Líbia, mas também tinha o seu Muammar Kadaffi. Era o vereador Fuinho Bigodudo, conhecido como Muar Fuinho Bigodudo.

Da mesma forma que o ditador Líbio insistia em não deixar o poder, mantido com injustiças e violência, o Muar tupinambiquense também se negava a “largar o osso”, mantido com verbas substanciosas, aos comunicadores dependentes da cidade.

Mas na manhã de domingo, no bar do Maçarico, quando já degustava a cerveja gelada, com a barriga encostada no balcão, Gelino Embrulhano pôde notar a presença espalhafatosa do Omar Dadde que, vestindo bombacha, chapéu de abas largas, botas de cano longo, camisa azul-pavão e um lenço de cetim amarelo, amarrado no pescoço, entrou em cena declamando:

- Eu vou/Eu vou/Pra casa agora eu vou... – Dadde mal terminou sua mensagem matinal quando foi interrompido por Gelino Embrulhando, que falou ao Maçarico, em alto e bom som:

- Pronto! Acabou o sossego! O chato acaba de chegar.

- Mas, olha... Veja quem está aqui. É o sujeito mais mentiroso, enrolado e falso que a cidade já viu – respondeu Osmar Dadde, olhando irônico pro Maçarico.

E depois ainda, aproveitando o silêncio que se fez, por alguns segundos no botequim, Dadde continuou:

- Que mané chato, mano? Parece que não me conhece.

Gelino Embrulhando respondendo a pergunta defendeu-se:

- Onde eu estou você logo vem atrás. Parece boiolagem, tesão de argola, qual é a tua, parceiro?

- O quê? Tesão de argola? Ocê tá louco Embrulhano? Eu sou é muito macho, meu chapa – indignou-se Osmar Dadde. - A cidade é livre, eu também sou. Por isso vou onde quero.

- A cidade pode ser livre e seus habitantes também – interveio Maçarico interrompendo a conversa entre os dois fregueses. Ele julgou que a rixa poderia descambar para a agressão física e o quebra-quebra.

- Ouvi um comentário que esse tal vereador Fuinho Bigodudo fez uma lei que proíbe o funcionamento de todos os bares e restaurantes da cidade, depois das 10 da noite. Ele instituiu o famoso toque de recolher.

- O quê? Ele fez isso? – perguntaram em uníssono os dois contendores.

- Fez sim. E se não me engano, o projeto de lei está no gabinete do prefeito Jarbas, pra ser aprovado – completou Maçarico, vendo que os birrentos esqueceram as hostilidades por alguns instantes.

- Isso quer dizer que ninguém mais poderá tomar seus birinaites nos bares, depois das dez horas da noite? – questionou Embrulhano.

- Mas isso é um absurdo! Vamos iniciar um abaixo assinado pedindo a cassação desse Fuinho. Ô sujeito maldoso! Votar nele é a mesma coisa que adubar erva daninha – proclamou Osmar Dadde brindando com um copo de cerveja que acabara de encher.

- Vamos depor esse Kadaffi tupinambiquense! – decretou Gelino Embrulhano.

A partir daquele momento, Maçarico teve a certeza de que o bar e a sua própria integridade física, estariam assegurados.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Ira Divina

Gelino Embrulhano era um sujeito mentiroso. Além disso, ele tinha o péssimo costume de, nas reuniões dos botecos que frequentava, quando contava seus casos escabrosos, apontar disfarçadamente com as mãos, as pessoas presentes a quem antipatizava.

Numa ocasião quando Embrulhano procurava mimar o meliante furtador de talões de cheques e um Chevette velho, ele parolava assim, no bar do Maçarico, repleto de simpatizantes:

- Imagine, o cara é um infeliz, um coitado, ele bebe porque o pai dele também bebia. Tem gente que não usa de paciência com esses desvalidos da sorte – enquanto expelia suas ideias, Gelino Embrulhano gesticulava dissimuladamente em direção ao Van Grogue.

Van recebia os recados, mas não atinava na motivação, que fazia o tal Embrulhano, envolvê-lo na quizumba, arrumada pelo libertino maledicente louco.

- Pois o cara é gente simples. Um pobre que não sabe a que veio neste mundo velho de meu Deus – continuou Gelino.

- Mas espera um pouquinho ai. Por favor: digam-me se o sujeito por ser débil mental pode fazer o que deseja na comunidade, inclusive furtar um Chevette e talões de cheques – aparteou Maçarico que esfregava, com certa energia, o guardanapo no tampo do balcão.

- É claro que não pode e não deve fazer o que lhe der na telha. Principalmente se tiver consciência de que não age de maneira correta – interferiu Van Grogue já bastante perturbado pelos gestos indicativos do Embrulhano.

- Gente! Vocês não entendem! Não podemos pagar o mal com o mal – implorou Embrulhano.

- Pelo que eu sei a comunidade paga com o bem, as maldades e maledicências que recebe desse patife, há mais de dez anos. E o miserável não se emenda. Assim não dá, assim não pode – reforçou Edgar D. Nall.

- É isso mesmo. Pra que dois pesos e duas medidas? Pau de dá em Chico dá em Francisco. “Ferro na boneca”. O tratante já deu provas de que não se emenda. Se quiser drogar-se que se mude pra bem longe – reforçou Maçarico.

- Imagine se tem cabimento isso: o retardado mental rouba o carro do trabalhador, o talão de cheques do comerciante, boqueja idiotices o tempo todo, e são elas, as vítimas, que precisam de amparo médico. Vá vendo. Que absurdo! – esgoelou Van Grogue tomado pela ira divina.

- Quem dá proteção a esses malefícios é o Jarbas, o caquético. Esses detonadores da comunidade fazem parte do curral eleitoral do prefeito e do deputado estadual Tendes Trame – informou Zé Cílio Demorais, o proprietário do Diário de Tupinambicas das Linhas, que até então se mantivera calado.

O consenso não convenceu Gelino Embrulhano, que no seu íntimo, achava ser preciso dar ao difamador, muito mais do que só bons conselhos ou repassar-lhe os princípios da boa educação.





segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Emprego

O vereador tupinambiquense Zé Lagartto, tendo sido reeleito, achou oportuno acumular os vencimentos da câmara municipal, com os salários pagos aos que ocupavam cargos nas secretarias municipais.

Diante dessa possibilidade, bastante plausível, ele teve uma ideia, laborando em seguida um plano.

Numa tarde de sábado, quando a empregada Zoraide preparava a janta, Lagartto pegou o telefone celular e simulando uma conversa com alguém, dizia de forma bem ostensiva:

- Pois é... Comentam no gabinete que o prefeito Jarbas me nomeará secretário da administração municipal... É... Sim, eu aguardo agora um comunicado oficial. Você entende?

Enquanto Lagartto falava, Zoraide, fritando os bifes e requentando o feijão, ouvia atentamente as palavras ditas pelo edil.

À noite quando chegou em casa Zoraide conversou com o marido Mário:

- Nossa! O Zé Lagartto além de ser reeleito e ter o direito de receber mais 48 salários de vereador, foi escolhido pelo prefeito, para ocupar a secretaria da administração. Então ele vai juntar a bufunfa de dois empregos. Isso é que é rabo.

Mário ouviu com atenção a notícia, mas não acreditou. Queria confirmá-la.

Então, no domingo, já no boteco do Maçarico, Mário comunicou os fatos aos colegas que bebiam cerveja.

O diretor proprietário do Diário de Tupinambicas das Linhas, Zé Cílio Demorais, que só bebia cerveja numa caneca de alumínio, enfeitada com o distintivo do Corinthians, que levava para o boteco, ouvindo as novas contadas por Mário, ligou ao repórter que, na redação do matutino, digitava um texto.

Marcelo ouviu atentamente as instruções de Zé Cílio e ao desligar o telefone, iniciou uma pesquisa de levantamento dos dados pessoais do vereador Zé Lagartto.

Na segunda-feira pela manhã, Lagartto que ainda não fora empossado no cargo de vereador, mas que desfrutava os últimos meses da gestão antiga, recebeu uma ligação. Era o repórter Marcelo do Diário de Tupinambicas das Linhas.

Depois dos cumprimentos formais, Marcelo perguntou se era mesmo verdade que o prefeito Jarbas o nomearia secretário municipal da administração.

Na terça-feira uma nota na primeira página do vetusto jornal tupinambiquense informava não ser verdadeira a informação de que Jarbas, o caquético, nomearia Zé Lagartto como secretário municipal. Mas se o prefeito o convidasse ele aceitaria prontamente.

Ao chegar à prefeitura, na terça-feira, Jarbas foi abordado pela chefe do gabinete, dona Francisca Bonoito, que lhe mostrou a publicação.

Jarbas tinha recebido o recado. Abrindo a agenda que continha a lista das pessoas que comporiam o seu futuro secretariado, anotou nela o nome do vereador Zé Lagartto.