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segunda-feira, 5 de março de 2012

Salário Modesto


                 Van Grogue não era calçada portuguesa, aquela obra de arte feita para ser pisada, mas a população de Tupinambicas das Linhas cria que para ser feliz deveria melindrá-lo sempre.
        Essa mania, de calcar o bêbado, nascera com a vovó Bim Latem a chefe de gabinete do prefeito Jarbas, o caquético testudo, espalhando-se ao longo do tempo e pela cidade toda.
        Eu já lhes contei inúmeras passagens sobre a tal vovô Bim Latem. Ela era fã de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira; quando entrou para o funcionalismo público – onde trabalhou durante cinco anos e já está aposentada há cinquenta -, comprou com o primeiro salário que recebeu toda a discografia dos artistas.
        Por ter o Van Grogue uma desavença com Luisa Fernanda, Célio Justinho que envolveu também o prefeito Jarbas, o vereador Fuinho Bigodudo e o deputado Tendes Trame, a vovó Bim Latem desejou, com todas as suas forças morais, poderio econômico e tráfico de influência, que o tal pingueiro fosse morar numa barrica a ser instalada em qualquer rua da cidade.
        Numa das reuniões que aconteceram ao redor da piscina de Luisa Fernanda e Célio Justinho, onde também faziam churrasco e ensaiavam as apresentações da Banda Funileiros do Havaí, a vovó teria dito sobre o futuro do Van de Oliveira:
        - Vai morar na rua entre os cães; de lá “meterá o pau” em nós e em nossas obras administrativas. Quando ouvir um sino sentirá vontade de perambular pelas vias, becos e vielas.  Esse catinguento terá muita sorte se alguém se compadecer dele e o tirar da sarjeta.
        Apesar de todo esse sortilégio lançado contra Van de Oliveira, a justiça agiu antes, tendo descoberto falcatruas imensas nas licitações da prefeitura tupinambiquense.
        Jarbas, sua mulher, Fuinho Bigodudo e até mesmo Tendes Trame, tiveram de explicar na polícia como conseguiram tamanho acúmulo de bens móveis e imóveis, com os salários modestos que recebiam.
        Para muitos a carreira política desses senhores havia chegado ao fim.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Sequestro do Velho Carteiro




                                  Parado na esquina, com o cacete na mão, Donizete Pimenta esperava por alguém que viesse atacá-lo.
               Na verdade o moço delirante, por sentir-se ameaçado, mantinha-se em posição de defesa.
             Quem passava pela rua via aquela figura grotesca, primitiva, de short bege, sem camisa, descalço, com o tacape em riste, pronto para o combate imaginário.
             Diziam no quarteirão que o amalucado tinha ascendência chilena e que viera para Tupinambicas das Linhas fugido da polícia. Segundo comentários, no bar do Maçarico, Donizete envolvera-se com o sequestro de um velho carteiro.
             Os vizinhos notaram que o doidinho tinha o hábito de sair de casa sempre acompanhado de uma jovem morena, de cabelos pretos e longos, caminhar rapidamente pelas ruas, e de não falar com ninguém.
             No boteco, Maçarico já demonstrara a sua desconfiança ao conversar com a figura, que entrara numa ocasião, para comprar cigarros.  
             Num domingo de manhã quando Van Grogue, Zé Cílio Demorais e Billy Rubina bebiam tranquilamente, comentaram as impressões causadas pelo novo e misterioso vizinho, que passara naquele momento, ligeiro assim, feito uma sombra, pela porta do bar.
             - Dizem que é muito rico. A mulher deve ter umas oito casas. Com escritura e tudo. – disse Van de Oliveira ao notar a dupla que caminhava.
             - Eles não têm filhos. – emendou Zé Cílio.
             - Eu ouvi dizer que eles têm filhos de outras uniões. Se não me engano são quatro menores.
             - Ninguém nunca viu esses dois com guris, zanzando de lá pra cá. – contribuiu Maçarico.
             - Talvez fiquem escondidos dentro da casa. – arriscou Van Grogue.
             - Será? – questionou Zé Cílio.
             - Eu não acredito que esse bagre cabeçudo tenha capacidade pra fazer isso. – desafiou Maçarico.
             - Olha, não duvide. Tem louco pra tudo. Pelo jeito que esse pé-rachado age, não duvide que ele seja capaz de gerar filhos com a própria filha. – garantiu Billy.
             - Pra mim esse retardado mental quer fazer bonito pra impressionar a mocréia miserável que caiu na rede dele. – concluiu Maçarico.
             Agora ali, parado na esquina, com a borduna na mão, à espera do inimigo imaginário, Donizete assustado, com o coração a galope, viu a polícia que chegava.
             Ao ser detido ele confessou que mantinha uma das crianças presas num cubículo, construído dentro de um dos quartos da casa, feita lá no fundo do quintal; e que a sujeitara, para aprender, a ouvir diuturnamente, centenas de músicas sertanejas.  
             Depois das primeiras providências, tomadas no inquérito policial, o delegado determinou que Donizete Pimenta fosse levado ao sanatório psiquiátrico do doutor Silly Kone, onde recebeu o tratamento especializado.
24/10/11  

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Usando a Tecnologia




                                                 - Olha, o que eu sei é que esse Van Grogue é meio louco, não dá pra confiar nele. – disse com firmeza o Pery Kitto jogando no chão um pouco de pinga, daquele seu segundo copo de cana, naquela manhã de sábado no bar do Maçarico.
                    Ernesto Mail que já bebericava a cerveja geladíssima, aproveitando a onda maledicente que se iniciava emendou:
                    - O cara corria atrás do pai armado com faca. Você quer o quê? As bocas de Matilde comentavam que quando esse demônio era criança xingava a mãe, porque lá na escola diziam que ele tinha a cabeça grande e era muito feio.
                    Maçarico ao perceber que a ventania iniciara, tirou do ombro o guardanapo branco e, alisando o balcão, na periferia do local onde os bebedores depositavam os copos, pigarreou ligando em seguida o rádio.
                    - Mas você não pode acreditar: no dia em que o E.C. 7,5 de Novembro ia jogar a partida do título, nós os mantenedores dessa honrosa instituição tupinambiquense, o famoso bar do Maçarico, combinamos uma caravana de torcedores do bairro que rumaria a pé, num bloco compacto, para o estádio.   Pois não é que essa figura energúmena, conhecida como Van Grogue ia na frente, sozinho, enquanto que todo mundo seguia atrás? – martelou Zécílio Demorais o proprietário do Diário de Tupinambicas das Linhas.
                    - Não, mas ele queria dar uma de gostoso, de importante. Só porque foi jogador de futebol, achava que podia ir mais depressa que os outros. E olha que queria até indicar as ruas, o trajeto. – concluiu Pery Kitto.
                    - Não sei o que esse cara tem na cabeça. Ao invés de arrumar um emprego, trabalhar como todo mundo faz, fica nessa de induzir o povo contra o Jarbas. Por que não vai assentar tijolo, bater aquela massa esperta, levantar parede? – inquiriu indignado o E. Mail.
                    - O cara é muito folgado. Vai ocupando espaço que não é dele. Não se toca, não sabe que não é bem aceito. Não sei porque não se manda logo. – questionou Zécílio Demorais.
                    - Com isso que ele fazia, era como se dissesse que todo mundo aqui na cidade era burro, que ninguém era capaz de nada. Mas ora veja! – afirmou Pery Kitto, já atordoado.
                    - Eu não sei jogar bola. Mas não aprendi porque precisava trabalhar. Tinha que cortar cana quando era criança. Não é bem assim do jeito que esse cara pensa não. – arrematou Zécílio Demorais ingerindo o último gole de cerveja.
                    - Maçarico do inferno! Manda outra geladíssima pra gente ai, mano! – solicitou já um tanto quanto que embriagado o Pery Kitto.
                    Para o espanto geral, o dono do boteco respondeu, depois de vasculhar, com o olhar de gavião, o interior do balcão refrigerado:
                    - Má notícia moçada! Acabou a alegria. Findou a cerveja.  Ontem a noite programei um telefonema, que faria hoje cedo, para o depósito pedindo outra remessa, mas esqueci. Não sei por que motivo não liguei, pedindo mais mercadoria. – justificou Maçarico.
                    A decepção baixou sobre os bebedores como a chuva gelada, repentina, desaba sobre os transeuntes desavisados.
                      Eles mal tiveram tempo pra deixar escapar um oh, em uníssono, das bocarras boquiabertas, quando entrou com um notebook, debaixo do braço esquerdo, o odiado Van Grogue. 
                    - Mas o que é que você está esperando Maçarico, liga agora pra distribuidora. A gente esperamos. – pediu com carinho o E. Mail.
                    Rendendo-se aos clamores, e temendo perder a freguesia, Maçarico tentou ligar para a empresa fornecedora, mas depois de alguns segundos ele estancou.
                    - E aí? Vai ou não vai? – perguntou com ansiedade o Zécílio Demorais.
                      - De que jeito? Estamos sem telefone. Está mudo.
                    - Como assim? Você deixou acabar o estoque de cerveja justamente no sábado, véspera do primeiro jogo do E.C. 7,5 de Novembro, na primeira divisão? Mas você enlouqueceu Maçarico? Temos que interná-lo na casa transitória com a máxima urgência. Isso é questão de saúde pública. – sentenciou o iradíssimo Pery Kitto.
                    - E ainda por cima sem telefone. Mas é o fim do mundo! É mesmo o final dos tempos. Não dá pra acreditar. Gente! Que absurdo! – indignou-se E. Mail.
                    - Mas que raio de comerciante é você, Maçarico? – quis saber, com os olhos esbugalhados, o Zécilio.
                    - E agora? Vamos ficar assim perdidos, nesse arrabalde, sem cerveja? Não dá pra acreditar nisso. – rebelou-se E. Mail.
                    Observando tudo o que se passava Van de Oliveira Grogue, desconsiderando a reação de frieza, que sua presença causara, quando entrara no recinto disse:
                    - Com licença. Por que vocês não mandam um e-mail para a empresa, solicitando via internet, o pedido?
                    Maçarico, Zécilio Demorais, Pery Kitto e Ernesto Mail paralisaram-se boquiabertos. Ao se entreolharem eles ouviram o que dizia o Grogue:
                    - Olha, eu tenho o notebook e sei como funciona; posso enviar a mensagem. Inclusive para o mundo todo. Vocês querem?
                    Depois de alguns minutos angustiosos, o caminhão do depósito de bebidas encostou defronte o bar, descarregando duas vintenas de caixas de cerveja.
                    - Esse Van Grogue é gente fina. Eu sempre acreditei nisso. – concluiu Zécilio, agora rodeado pelos companheiros que brindavam os bons momentos, com a saborosa alegria recém-chegada.
Texto revisado.
09/08/11

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Casamento de Donizete Pimenta



                                                 - Van Grogue, carniça fedorenta, é verdade que você vai se casar com o Donizete Pimenta?
                    - O quê!? Está me estranhando Pery Kitto? Eu sou é homem. Não me confunda.
                    Diante da gargalhada que explodiu no boteco do Maçarico, vinda de todos os demais bebedores, Van emendou:
                    - Se pelo menos fosse um pouco mais bonito, aceitável, ainda vá lá, mas esse Donizete é dose, ninguém aguenta essa podridão.
                    Célio Justinho que, horas antes, naquela manhã de domingo, discutira com Luísa Fernanda sobre os defeitos surgidos no aparelho de TV comentou:
                    - Olha esses dois ficam tanto tempo juntos, cochicham tanto, sobre tanta coisa, que não se pode duvidar que só falta mesmo o casamento pra selar a união.
                    Pery Kitto tirou o boné verde, coçou a cabeleira branca, cofiou o bigode alvinegro e mandou:
                    - Dizem que o casório será no sábado que vem ali no cartório de registro civil. E que depois darão o maior churrasco jamais visto em toda a história da Vila Dependência.
                    - E olha, comentam que a festa terá um jeitão diferente. Para dar sorte, os convidados se sentarão em tocos, e que durante os festejos dez cães Poodle andarão livres pela casa. – falou num tom seguro, inspirador de veracidade, o Gelino Embrulhano ao mesmo tempo em que, com um gesto, solicitava ao Maçarico, a dose costumeira de cachaça.
                    - Acontece que ninguém sabe onde será a festa. – emendou Maçarico enchendo o copo de “cana” para o Embrulhano.  – Uns querem que seja no quintal da tia Luísa Fernanda, onde tem uma piscina, mas outros acham que o melhor lugar é no barracão da funilaria.
                    - Olha, gente eu quero ser a “madrinha” dessas duas loucas que entre bofetões e afagos dão vida a esse quarteirão chocho. – esgoelou Delsinho Gandelhoso ao entrar desmunhecando no recinto. – E eu quero ser a “primeira” a pegar no buquê. Nem vem que não tem queridas. – arrematou, dando pulinhos, o pernalta serelepe.
                    O clima festivo só foi interrompido quando, de repente, entrou o vereador Fuinho Bigodudo que, com um celular na mão direita bradava:
                    - Está tudo muito bom, está mesmo tudo muito bem, mas podem parar com essa gandaia. Acabei de atender um telefonema do deputado Tendes Trame. Ele me disse que já acionou a polícia pra acabar com esse auê dos infernos. O federal me garantiu que recebeu um montão de reclamações dos vizinhos por causa desse infortúnio que não tem mais fim.  Portanto podem começar a circular. Não quero ver mais ninguém amontoado falando asneiras.
                    Um silêncio tumular pairou no ambiente. Caminhando tranquilo entre os homens Fuinho aproximou-se do Maçarico e sentenciou:
                       - O senhor sabe, não é, seu Maçarico? O alvará do seu bar está vencido! Portanto antes que chegue o reforço policial pode encerrar o expediente. Agora!
                       Donizete Pimenta apoiado ainda no balcão, encarou o vereador e disse:
                    - Você não vai mais ter sossego na sua vida. Vou infernizar você.
                     Trocando olhares em silêncio, todos depuseram seus copos e garrafas sobre o balcão; e depois, sem proferir um único som, abandonaram o bar.

No vídeo:
Seu Domingos não é o Van Grogue, mas também confunde tudo. O que tem a ver corte gratuito de cabelo com vias de acesso e anéis viários? 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Pagando o Mico




                                            Van Grogue quando moço trabalhou na prefeitura de Tupinambicas das Linhas. Ele dizia aos colegas de copo, que era encarregado importante no setor administrativo, mas na verdade era lixeiro.
                    Em 1969, os serviços de coleta de lixo na cidade, eram feitos por trabalhadores contratados diretamente pela prefeitura. Portanto, eles também eram funcionários públicos.
                    Por causa da vida desregrada que levava, bebendo, fumando e alimentando-se mal, Grogue foi acometido pela tuberculose.
                    A irmã dele que era empregada doméstica da professora catedrática doutora Mirthôa, aconselhou-o, diante do emagrecimento, da febre nos finais do dia e da tosse insistente, com a qual expelia catarros cheios de sangue, a procurar o serviço público de saúde.
                    O médico acertou o diagnóstico e Van foi informado que a sua doença era causada por uma bactéria chamada Mycobacterium tuberculosis ou Bacilo de Koch. O doutor ensinou também que antigamente, esse mal era conhecido como peste cinzenta ou tísica pulmonar.
                    Depois de ter chegado em casa, vindo da consulta, Grogue encontrou o roliço irmão Fran que se mostrou desejoso de saber notícias sobre o problema.
                    - Ah, o doutor falou que eu tenho um tal de mico, não sei o que, e isso dá tosse na gente – disse Van.
                    - Então é o mico? – quis saber Fran, o irmão mais fofo.
                    - É. Não sei se é cinzento. Mas é pequeno, tipo bactéria – concluiu Van.
                    - Ah, sei. Pequeno? A gente pode fazer uma simpatia: vamos passar isso pra frente e você sara.
                    No mês seguinte o filho da vizinha, um moleque irrequieto, que não dava sossego pra ninguém, apareceu na cozinha da sua casa, com um mico leão dourado, causando espanto em toda a família.
                    Os pais e demais irmãos, do vizinho agitado, tiveram de comprar telhas, madeiramento e telas para fazer a morada do bichinho.
                    O alvoroço todo provocado foi, por muito tempo, motivo de chacota da doutora Mirthôa e seus irmãos.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Peixe Vermelho





                                              Depois de caminhar muito pelas ruas da cidade Van Grogue, bastante cansado, entrou no Magestic Bar, situado na Rua Governador Peter King, propriedade de Claudinho Quati.
                        Van Grogue sentou-se a uma das mesas, perto da porta e pedindo, com um gesto ao barman, a cerveja “esperta”, ouviu a conversa do casal que, postado na mesa contígua, trocava ideias mansamente.
                        O homem era bem alto, já passara dos cinquenta anos, tinha os cabelos embranquecidos e no tom da sua voz transparecia certo cansaço.
                          Seu terno impecável, azul pavão, indicava ser a figura, alguém que prezava a meticulosidade, os detalhes de tudo, fenômeno observável também na articulação cuidadosa das palavras.
                        A mulher tinha menos de trinta anos, seus cabelos louros estavam curtos e a minissaia preta, contrastava com a blusa estampada, na qual predominava a cor branca.
                        - O sujeito era deficiente físico, morava na casa existente no fundo da loja de armarinhos, e passava a maior parte do dia na cama, onde lia as matérias do curso colegial que fazia – disse sereno o homenzarrão, ingerindo um gole de vinho branco.
                        - Ele não trabalhava? – quis saber a loura.
                        - Não. Ele usava botas ortopédicas pretas e se não estudasse as matérias do curso que fazia, lia outras coisas. Bom, no imóvel vizinho, havia um boteco pequeno onde uma família japonesa trabalhava. A mulher era viúva e tinha dois filhos adolescentes. Eles também estudavam e um deles o Yukió pretendia ser médico.
                        - Nossa! Que interessante! – exclamou a jovem. Ela servia-se da salada precedente do almoço.
- Bom, depois que me mudei de lá, e passados muitos anos, soube que o tal Yukió matou-se com um tiro nos cornos.
Na mesa ao lado Grogue quase engasgou com a notícia. Mas uma coisa acendeu-se na sua lembrança e assim, como que num passe de mágica, pôde ver o dia em que, quando criança, brincava num local chamado por ele, seus colegas e irmãos de “mataréu”.
O local era propriedade da família da professora catedrática doutora Mirthôa, que também tinha algum direito sobre os imóveis deixados pelo avô do Grogue.
Numa tarde, Van de Oliveira, estando sozinho no meio da mata, descobriu um corregozinho que a certa distância do seu nascedouro, depois de despencar de uma pequena altura, formava uma lagoazinha.
O menino estava entretido com o achado e, desejando aumentar o volume da água, construiu uma pequena parede de barro que circundava as margens.  
Mas, no exato momento em que o menino voltava-se, depois de pegar um graveto, apareceu-lhe na frente um japonês adulto, bem vestido que, sorridente perguntou ao garoto o que ele fazia ali.
O rapaz respondeu que brincava, quando ouviu o homem pedir-lhe que pegasse uma vareta caída atrás dele - do guri.
O menino obedeceu, mas quando se voltou, viu que havia na pequena lagoa, um peixe ornamental vermelho.
O moleque embasbacado notou um sorriso maroto, no rosto do japonês.
- Nossa, um peixe! De onde veio isso? – indagou perplexo o menino.
- Veio lá de cima – respondeu o homem apontando a cabeceira do córrego.
Incrédulo o rapaz olhou novamente para o estranho.
- Vamos pegá-lo? – propôs o sujeito que tinha vestes de quem trabalhava em algum escritório administrativo.
Diante dos esforços em vão, para capturar o peixe com as mãos, o menino anunciou uma ideia:
- Se a gente tivesse uma peneira, a gente pegava ele.
- Mas nós não temos peneira – respondeu o aparecido com um sorriso sarcástico nos lábios.
- Vamos fazer uma então – retrucou o menino, iniciando a coleta do material que pretendia usar.
Van Grogue pegou uma forquilha de cabo bem grande e amarrando verticalmente, com os cipós, três pequenas hastes, nos vértices do triângulo, iniciou a tecelagem da geringonça.
O homem agachado, retirando o barro que havia no pé esquerdo do seu sapato de cromo alemão, mostrava interesse pela ação do garoto.
Quando o trabalho já estava quase concluído e o objeto aparentava uma peneira rústica de forma estranha, o menino tentou capturar o peixe usando-a.
Mas não teve sucesso. O bichinho escapava e o pior de tudo aconteceu: numa das tentativas desconjuntou-se o engenho com o peso das águas.   
Sob o olhar irônico do homenzarrão, o menino bem constrangido, tentava consertar a coisa. Entretanto, num certo momento, tomado por um surto de ódio, levantou-se e atingindo com violência o chão, destruiu o equipamento.
Bastante chateado o moleque desapareceu do mato.
Van Grogue na mesa do boteco, já atordoado ouvia com menor exatidão as palavras ditas pelo casal ao lado.
Esperando por outra garrafa de cerveja Grogue recordou-se que na casa vizinha a que ele morava, logo depois do incidente com o Yukió, mudou-se a empregada da professora catedrática, a doutora Mirthôa.
Grogue lembrou-se de que daquele momento em diante, seus dias não foram mais os mesmos.

23/03/11