Se o leitor acha que trabalhar é única e exclusivamente levantar-se pela manhã, e logo em seguida sair para cumprir suas obrigações no banco ou no meio da papelada do escritoriozinho de contabilidade, está muito enganado.
Existem outras formas de trabalho além dessas. E a nossa capacidade limitada para compreender isso, nos autorizaria a dizer que todas as pessoas, que não fazem essas coisas, seriam vagabundas.
É essa ignorância, esse estreitamento de consciência, a responsável também pela disseminação de boatos e maledicências sobre as pessoas de quem não gostamos nos bares, cartórios, bancos, igrejas, sindicatos e no próprio bairro.
Não é porque temos o dinheiro sobrando que abusaremos da vizinhança, maltratando-a com os latidos irrefreáveis e diuturnos do Poodle neurótico.
Não é porque temos a posse de alguma fortuna que podemos invadir a privacidade alheia, atormentando os do entorno, com as repetições obsessivas das músicas queridas.
Afinal, não sabemos, nem imaginamos saber, se as pessoas que de nós se acercam, o fazem por gostarem de nós ou do nosso dinheiro.
Quando covardemente espancamos alguém não pensamos nas consequencias. Sabemos que temos ao nosso lado a concubina e a filha, que nos reforçam, mas nos esquecemos que a violência física, apesar do nosso dinheiro todo, pode nos comprometer.
E acreditem, não é corrompendo as pessoas que vivem ao lado da vítima que nos livraremos da culpa. De nada adianta subornar os amigos daquele que sofre por causa da tirania do contabilista meliante.
Se o vadio não se entender diretamente com a pessoa a quem causou tanto mal, de pouca valia será presentear os conhecidos do ofendido.
A timidez precisaria dar lugar à coragem de se aproximar e desculpar-se. Aliás, coragem não é atributo do sujeito que só age ou se solta em grupo.
Por quais caminhos você andava em maio de 1997? Parece que foi ontem mesmo, não é? E tudo pode estar assim tão vivo, na memória, que a recordação assemelhar-se-ia a um vídeo possível de ser revisto em qualquer ocasião.
Em maio de 1997 ocorreram momentos de muita covardia, traição, engodos, disseminação de boatos destruidores, mentiras forjadas que objetivavam segregar, hospitalizar e destruir pessoas em nome do dinheiro e da posição social.
Com muita cerveja, os matadores se reuniam ao redor da piscina, onde se tramava o destino dos pobres. A destruição era a meta. Havia a adesão de seitas, cujos fins eram os de exterminar, de envergonhar, de humilhar, em nome de não se sabe o que.
Políticos se envolveram prometendo o cumprimento da sentença de morte, em troca de mais uma temporada, com direito aos salários no final do mês.
Que vergonha! E dizem depois que essas associações têm escopo humanitário, fazem filantropia e promovem o crescimento dos seus adeptos.
Mas ninguém garante que não façam esses encantos todos sobre os cadáveres dos divergentes. Que falta de juízo! Quanta grosseria, ignorância, quanta impiedade!
Isso tudo leva a concluir que é verdadeira a assertiva de que a riqueza, de algumas pessoas, é feita com a destruição de outras, mais ingênuas. E que até o cobalto usariam no assassínio.
Os inocentes, crentes nas noções das tais seitas, são os primeiros, a serem danados, destruídos. A lengalenga os prepara para o desapossamento dos bens, da saúde, das amizades e da própria vida.
Mas há um tempo para tudo. Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Como diria o nosso amigo Van Grogue: “A gente esperamos receber a bufunfa que nos pertence”. Até o químico bêbado, mais surdo, compreende isso.
A mesma safadeza que compõe o contabilista cachaceiro, sua concubina bancária neurótica e a filha, candidata à meliante de periferia, forma também o miserável que simula doença, pra receber esmola numa esquina qualquer, e os ladrões que desviam dinheiro público em Brasília.
A sacanagem só muda de pessoa. É como se ela incorporasse em sujeitos predispostos a agir assim. Essa disposição pode ser até genética. A semelhança entre o contabilista bêbado, sua concubina bancária neurótica e a filha, candidata à meliante de periferia, com os malandros de Brasília está na quadrilha que os assessora.
Os malandros do Distrito Federal, agora presos, têm auxílio de pessoas que deles receberam favores como empregos, facilidade em licitações, e muitas outras benesses ainda ocultas.
O tal contabilista bêbado, sua concubina bancária neurótica e a filha candidata à meliante de periferia, são assistidos por grupelhos professantes de pseudo-religião, cujos membros fazem parte do secretariado dessa Prefeitura de Piracicaba.
Na verdade são assassinos carentes de qualquer escrúpulo diante da possibilidade de sacrificar suas vítimas.
Piracicaba está cheia disso. A cidade fede. Imperam a falsidade, as segundas intenções, a dissimulação e a hipocrisia.
Esse contabilista bêbado, sua concubina bancária neurótica e a filha candidata a meliante de periferia, são pessoas que têm muito dinheiro. Ou aparentam ter. Eles corrompem consciências com a maior facilidade. Lastreados nessas crenças espiritistas arregimentam almas ingênuas que se deixam enganar pela prosápia fazendo o que eles sugerem.
A corrupção de funcionários está no rol formador da caixa de malignidade dessa gente perversa. Há quem se venda por churrascos, cervejas, CDs; mas também existem os que se deixam levar pela lengalenga difamante.
Pessoas assim envergonham a cidade, o partido político, os sindicatos de classe, a prefeitura e os políticos que os protegem.
São ladrões de herança, matadores de alma e como tal, responderão pelos crimes que cometeram.
Depois de ter o dente arrancado e sentir que as dores cessaram, Van Grogue pôde aceitar o convite especial, feito por Luisa Fernanda e Célio Justinho, que na chácara da família, ofereceriam um churrasco aos amigos.
Defronte ao espelho Grogue se preparava, vestindo-se com a melhor roupa que dispunha.
Era um sábado de manhã quando Luísa Fernanda, acordando bem cedo, notou aliviada, que não choveria. Ao olhar da janela para os limites da propriedade, a mulher percebeu, perto da churrasqueira, o vicejar duma toceira de mato alto.
Espreguiçando-se ela foi ao banheiro, tomou um banho demorado, escovou os dentes e já no quarto, vestiu-se com um short preto, uma camiseta branca e chinelos de tiras verdes.
A caminho da cozinha Luisa ouviu os acordes do hino do Corinthians que Célio Justinho tentava, mais uma vez, executar de orelhada, naquele teclado obsoleto, cujas teclas mostravam-se amareladas pelo tempo e higiene deficiente.
- Bom dia Célio. De novo com esse teclado? Você não acha que tortura muito os pássaros, as galinhas e os porcos dos viveiros, com essa mania? Veja que até as samambaias se ressentem. – ralhou a chateada Luisa ao sentar-se à mesa para o café da manhã.
- Nós mudamos para a chácara por causa dos vizinhos que não gostavam das minhas músicas. Tudo bem; estamos nesse fim de mundo onde nem calçamento a estrada possue. Quando passa um carro a poeira levantada, se condensada e comprimida, pode transformar-se num castelo, e nem aqui posso tocar o que eu quero. Ora, faça-me o favor! – retrucou irado o Justinho.
- Você sabe que hoje é sábado e daremos um churrasco pra todo o pessoal importante da cidade. Jarbas, Zé Lagartto, Fuinho Bigodudo, vovô Bim Latem, Virgulão, Zé Cílio, tia Ambrosina, Tendes Trame, e até o Charles Bronchon aparecerão por aqui. Sem falar nos contabilistas, químicos, dentistas, farmacêuticos, bancários, médicos, açougueiros, jipeiros e claro, Van de Oliveira Grogue que já confirmaram a presença. – informou, com firmeza, Luísa Fernanda.
- Eu não ficarei por aqui. Tomo os meus goles e saio logo que começar a quizumba. Eu não suporto esse Grogue. Todo mundo sabe. Não gosto dele. – reagiu Célio igual a uma criança contrariada que faz birra.
Sem responder à teimosia do Célio, Luísa batendo palmas, fez vir a mulher que servia na cozinha. A jovem se aproximou mostrando-se atenta às ordens e ouviu:
- Esmeralda, minha filha, faça o favor de mandar vir aqui o caseiro. – ordenou Luísa Fernanda sorvendo um gole de café açucarado.
- Sim senhora. – respondeu a moça retirando-se em seguida.
- Você não me decepcione, novamente! Espero mais educação da sua parte. Escutou bem seu Célio? Não quero mais demonstração de falta de educação com os vizinhos. Morou coisinha feia? – Luisa Fernanda demonstrava a autoridade que a mantinha, há uma vintena de anos, no cargo de gerente, do Banco Tupinambiquence Multinacional.
- Mandou me chamar madame? – indagou o caseiro que chegava, segurando nas mãos o chapéu de palha enorme, que lembrava os “sombreros” mexicanos.
- Ô Augusto, faça o favor de capinar aquelas toceiras que estão perto da churrasqueira. E vá acendendo o carvão. O pessoal começa a chegar logo e não quero ninguém insatisfeito nessa festa, entendeu?
- Sim senhora. Estamos aqui para servir. Com licença. – respondeu o solícito Augusto, saindo em seguida.
- Sempre fui educado com todo mundo. Aquele vizinho chato é que implicava quando eu tocava as sertanejas. – defendeu-se Célio.
- Ele não implicava com as músicas sertanejas. Ele implicava com o som alto e a repetição doentia que você fazia pra provocar. – arrematou Luisa mordendo um biscoito.
- Vá, vá, vá... Puta cara chato, meu! – Ele se queixava até do latido da cachorra. Mas pode uma coisa dessas? – indignou-se o Célio.
- Bom, eu não sei. Só sei que tudo isso já passou e não quero mais esse tipo de vexame. – finalizou Luisa.
Os cachorros, ao latirem, indicavam a presença das pessoas que chegavam.
Um a um os convidados de Luisa Fernanda e Célio Justinho surgiam a bordo dos automóveis importados e reluzentes. Van Grogue chegou de Jipe amarelo 4 x 4.
Todos beberam, comeram, conversaram, ouviram música, planejaram estratégias, trocaram juras de amizade e puseram muita fé no futuro.
Quase no final da reunião festiva o casal anfitrião, interrompendo a agitação e reunindo todo mundo, agradeceu a presença deles, não deixando de prometer auxílio aos que concorreriam ao preenchimento das vagas dos cargos eletivos, nas próximas eleições.
- Não é pra me gabar, mas vocês sabem que temos uma influência notável nesta cidade. Podem contar conosco. – completou Luisa Fernanda no fim da festa.
Antes de irem embora, os mais exaltados resolveram passear pela redondeza, com o Jipe do Van Grogue.
Jarbas, Tendes Trame, Zé Lagartto, Fuinho Bigodudo, Virgulão e Zé Cílio subiram no veículo e fazendo arruaça arrancaram perdendo-se na mata que revestia o terreno irregular.
- Eu sabia. Bem que me avisaram. Essa turma tem um quê comigo que nem o Freud teria facilidade pra explicar. – lamentou-se o Van Grogue quando soube que a cúpula diretiva da cidade havia perdido o seu Jipe num buraco profundo.
Um contabilista bêbado, uma bancária neurótica, sob tratamento psiquiátrico, e alguns funileiros assassinos, podem surgir no seu caminho durante essa longa estrada da vida. Mas nenhum deles será tão nocivo quanto o panaca lesador, de milhões de pessoas, quando retém para sí o dinheiro público.
Os funileiros assassinos que enchem diária e impunemente a casa do vizinho com tinta, impedindo-o de respirar podem receber, a qualquer momento uma saraivada de balas, que os mandem logo pro inferno, lugar de onde não deveriam ter saído.
Piracicaba foi matéria da grande imprensa nacional quando seu prefeito Barjas Negri (PSDB) era indicado pelos Vedoin, proprietários da empresa Planan, de ser um dos beneficiários do esquemão conhecido como escândalo das sanguessugas. A Polícia Federal que apurou os indícios formando, com as provas colhidas um inquérito, registrou que o prefeito piracicabano, quando era ministro da saúde do governo de Fernando Henrique Cardoso, levava vantagens pecuniárias nas licitações de ambulâncias, distribuídas a mais de 600 municípios brasileiros.
Essa vergonha caipira, minimizada pelos simpatizantes do PSDB como um comportamento normal, dentre os procedimentos usuais dos políticos vivazes, não ocupou mais o espaço midiático, tendo o grande público ficado sem qualquer certeza da culpabilidade ou não do grandessíssimo prefeito.
A gestão do senhor Barjas Negri, em que pese ser ela assessorada por gente do quilate da senhora chefe do gabinete Isaura Francisco Bonato Mazzuti, é uma das mais medíocres e imprudutivas do PSDB, que governou esta Piracicaba por várias vezes.
Nem os governos municipais do atual deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame (PSDB) e do professor catedrático da Esalq Huberto de Campos, também do PSDB, foram tão fracos e insossos como esse do professor doutor Barjas Negri.
A ideologia professada por esses senhores é a do empreendedorismo que quando mal feito e instruído, gera essas aberrações do tipo da funilaria que funciona prejudicando vizinhos e comércio de bebidas no corredor de habitação popular.
Quase tudo o que não presta acompanha esse governo incolor, inodoro, insípido e vacilão. Tentando justificar o conforto que o assento das cadeiras públicas lhes causam nos derrières aristocráticos, esses senhores asfaltam ruas já calçadas, constroem pontes onde não há tanta necessidade e deixam fraquejar o atendimento à saúde pública. Parece praga. E vai ver é mesmo.
O Tribunal de Contas do estado de São Paulo tem rejeitadas, reiteradas vezes, as contas prestadas pela administração do senhor professor Barjas Negri. A aplicação das verbas federais e estaduais recebidas, não corresponde ao que determina a Constituição Federal, na educação, principalmente. Enquanto isso obras suntuosas, aparatosas, viscosas e inúteis para a população carente, brotam no solo piracicabano.
Tem horas, meu amigo, que dá vergonha ter nascido neste lugar.