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segunda-feira, 8 de março de 2010

As feijoadas

Charles Bronchon chegava em casa cansado todas as tardes. Depois que tomava banho ele saia pra rua e ficava na calçada observando o movimento.

Sentado num pedaço de pau ele observava os calcanhares que estavam rachados, a barriga enorme que o impedia de ver as unhas encravadas e os tornozelos inchados.

Charles perdera os pêlos das pernas e dos braços há muito tempo. Apesar de manter tufos de cabelos na testa, ele percebia que, no alto do cocoruto, eles escasseavam.

Por ser tabagista inveterado ele se alimentava muito bem. Seu prato favorito era a feijoada. Diziam os fofoqueiros de plantão, que Charles regozijava deglutindo latas e latas do tal alimento durante a semana.

A quem dissesse ser ele um glutão, respondia que precisava estar sempre forte para enfrentar as dificuldades da vida. Então Charles mandava goela adentro, usando colheres, porções imensas das massas nutritivas.

Se alguém reclamasse por ele comer tudo sozinho, não deixando nem um pouquinho pra ninguém, Charles mandava caçar sapos; e que fosse pra esquina ver se ele se encontrava lá.

- Vá ver se eu estou na esquina. – dizia ele com a cabeça quase enfiada na lata, na qual introduzia colheradas rápidas, sacando-as cheias.

E depois então, de saciada a fome, Charles arrotando, tirava um cigarro do maço, que deixava sobre a TV e, arrancando dele o filtro, acendia-o aspirando profundamente a fumaça quente.

De vez em quando Charles punha na boca o palito de fósforo que usara pra acender o pito. Ele não o mastigava, por não ter os dentes, mas aliviava-o a sensação que lhe causava o cavaco nas gengivas; era triste ver que delas emergiam os cacos podres, que um dia, há muito tempo, foram seus dentes.

Depois que coçava o saco, soltando-o dos apertos, olhava pra patroa barriguda e silencioso igual a um felino, saia pra calçada por onde caminhava até o boteco.

Por não gostar de água e só beber cerveja, Charles tinha mais prejuízos do que lucros no seu negócio. Chegaria o dia em que ele, muito cansado, desejaria parar com aquilo tudo.

Charles queria descansar. Descansar em paz.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Na China cães e gatos são alimento

Cada povo com a sua cultura. Nós aqui no Ocidente procuramos cuidar da melhor forma possível dos nossos cães e gatos. Outro dia vi na TV, se não me engano no Domingão do Faustão, uma atriz pedindo às pessoas que não comprassem os animaizinhos. O objetivo dela era o de lançar uma campanha restritiva do comércio dos bichinhos e da degradação que eles sofrem.

Entre nós existem até sociedades protetoras dos animais. Há leis que protegem a integridade física e a saúde desses nossos irmãozinhos.

Nas Universidades há cursos de Veterinária formadores de profissionais que cuidarão do bem estar dos amiguinhos. São Francisco de Assis considerava os animais criaturas de Deus devendo ser respeitados por nós, seres humanos.

Quem não se indigna quando vê alguém promovendo maus tratos contra eles? No Rio de Janeiro, há algum tempo, o vereador Cláudio Cavalcanti, propôs uma lei que tinha por objetivo liberar os animais de tração, dos suplícios e maus tratos feitos por seus proprietários.

Cláudio Cavalcanti foi ator da Rede Globo, tendo atuado em muitas novelas e filmes inesquecíveis.

Hoje uma indústria enorme floresce em torno do bem estar e saúde dos bichos. Há fábricas de ração, de xampus, sabonetes, medicamentos, roupas; há clínicas de psicologia especializadas, tratamentos que usam a homeopatia, e até peritos que aplicam passes nos debilitados.

Há ainda treinadores profissionais, que ganham a vida adestrando os bichos.

Isso tudo acontece aqui, no Brasil. Mas na China a coisa não é bem assim, não. Lá, minha amiga, os gatinhos e cachorrinhos, antes de virarem comida, são tratados com a maior crueldade.

Eles são amontoados e aprisionados nos engradados minúsculos para o transporte por caminhões. As gaiolas são empilhadas nas carrocerias e levadas até os abatedouros. Existem locais que funcionam como entreposto, aonde os usuários vêm para comprar a preciosa mercadoria.

Veja no vídeo como funciona a matança de cães e gatos, na China.



Você comeria bifes de carne de cachorro ou de gato?


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

As Almofadas

Leandro Pausa aproximou-se da envelhecida Mara K. Utáia e dizendo que a mandaria para o hospital psiquiátrico mais próximo, queixou-se também da mancha esverdeada que ela causara na sua almofada nova.

K. Utáia sentara-se com a calça jeans suja, num dos coxins do Leandro, e tal fato fora suficiente para brotar nele as reações iradas.

- Verme do inferno, ladra de herança, fofoqueira de beira de piscina, comedora de churrasco de Poodle, fumaça que sufoca, será que você não percebe que sujou a minha almofada que acabei de comprar? – Inquiriu aos berros o iracundo Leandro.

- Nossa! Por que tanta brabeza criatura? Eu sei que você me olha e baba. Mas não é assim, não filhote. – retorquiu K. Utáia com ironia.

- Você acabou com a minha credibilidade. Depois de você não sou mais o mesmo; desacreditou o meu comércio. Quero que você vá logo pro inferno! - berrava Leandro Pausa.

- Quem pode, pode bebê! Quem não pode, se sacode, bate palmas ou vaia. – chuleou K. Utáia com serenidade.

- Vou te perseguir durante toda minha vida. Ainda te verei clamando perdão, carniça fedorenta! – esganiçava Leandro sem se importar com os vizinhos que atentos, ouviam mais um escândalo na casa do latoeiro.

- Depois que você parou com a Yoga ficou assim neurótico, intratável, um burro, uma besta insuportável – explicava Mara.

- Yoga, que mané Yoga? – quis saber Leandro.

- Yoga, sim. Você me disse que o magricela da Companhia Tupinambiquence de Energia Elétrica, te ensinou aquilo tudo. E quem mostrou como era, para o tal magrinho, teria sido o gorducho bigodudo, que descansava na carroceria do caminhão baú, durante os horários de almoço.

- Mas você en-lou-que-ceu! Pirou no sofazinho. O que é? Parou com o Gardenal, com o Rivotril? Você está idosa demais, Mara. Seu tempo já passou. Já era. Só pode ser cocô de gato. Não é possível. Pare de recolher bichanos da rua. Você ainda vai se dar mal. – lecionou Leandro.

Um silêncio fúnebre envolveu os litigantes.

- Por que você não passeia pelos campos verdes da fazenda oligárquica, onde seu pai se aposentou aos trinta anos de idade? Aproveita e pega um pouco daquela água da bica, e leva pra ele que vai completar noventa. – atacou Leandro.

- Assim não tem condição pra continuarmos. Eu não fico mais aqui. Com licença, vou à luta. Essa conversa a mim não nutre. – decretou Mara saindo e jurando que nunca mais voltaria ali.