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terça-feira, 13 de abril de 2010

Os Xerifes do Quarteirão

Quando um quarteirão está sob as influências malignas daquelas pessoas que se sentem os xerifes do lugar, podemos presenciar alguns frutos das suas ações: calçadas sujas, árvores podadas ou mortas, muros queimados, pixados e provocações inúmeras.

Percebe-se também, nos vizinhos de boa índole, a incidência de doenças tais como a depressão, o câncer e as cardíacas.

Os chamados xerifes do quarteirão, não chegam a distinguir os comportamentos dos seus contíguos. Ou seja a implicância com alguém ocorre não por ser ele (esse alguém) muito mau ou prejudicial à coletividade.

A implicância nasce por diferenças de costumes. Por exemplo: se os xerifes do lugar que têm o hábito de beber, fumar e consumir drogas reunidos defronte suas casas, não forem imitados por algum desavisado que chegou ao trecho, instala-se contra ele uma verdadeira campanha expurgatória.

Os xerifes podem até ter parentes frequentadores das igrejas e por isso mesmo, se não houver atenção, a boataria defenestrante pode recrudescer. Geralmente os xerifes cruéis de um lugar não crêem em Deus.

Os malignos podem até freqüentar os cultos e celebrações, mas nota-se que logo reiniciam suas arengas hostis contra quem não conseguem nutrir simpatia. É uma questão de química. Os semelhantes se atraem. Ou melhor: os pássaros de penas iguais andam juntos.

Portanto para que não haja tanta discórdia você deveria participar das rodas de bebedores, fumar sua maconhazinha de vez em quando e, tragar mostrando satisfação no seu rosto, a fumaça cinza daquele cigarro paraguaio que podem lhe oferecer.

Então só assim, digamos “vibrando na mesma freqüência” haveria mais aceitação e menos embates entre as preferências.

É conhecidíssima a noção de que “pau que nasce torto, morre torto”, ou em outros termos, que os maldosos seguem com suas maldades até o final. De que adianta você banhar o porco, preocupando-se com a sua higiene? Ele não retornaria logo para a lama?

Quem poderia impedir os cães de voltarem para os seus próprios vômitos? É assim com o bêbado, com o usuário de drogas.

Você pode não se preocupar em tirá-lo da imundície na qual se encontra. Mas com muita certeza, ele se preocupará em trazer você para o lado promíscuo em que se acha.

Para você entender alguém, saber realmente quem ele é, basta ver o que ele faz ou diz. Pode uma árvore ruim dar bons frutos? Se o quarteirão vive sujo, as pessoas ao redor estão doentes, a conclusão sobre as influências dos xerifes no trecho podem não ser das melhores.

Em alguns quarteirões a maioria da violência que se pratica é a verbal. São raras as hostilizações físicas tais como espancamentos cometidos por famílias inteiras e até apedrejamento. Quando isso ocorre você pode concluir que os agressores agem assim por não dispor de qualquer outro argumento que possa defender as posições condenáveis.

Uma cidade só será próspera e feliz quando os xerifes cruéis dos quarteirões tiverem suas ações malignas, praticadas nas trevas, conhecidas pela sociedade toda. É bom relembrar que os políticos insensatos que protegem os agressores morais terão a mesma sorte que eles.

Se Deus é amor, podemos concluir que os xerifes prezadores do assédio moral não conseguiram ainda chegar até Ele e, que as influências no quarteirão são mesmo feitas pelos tais adoradores das trevas.





sexta-feira, 5 de março de 2010

A Roda

Em Piracicaba muitas crianças se dedicavam a catar lixo pelas ruas. Em 1994 quando morávamos à Rua Bela Vista, havia uma menina que puxando sua carroça, numa certa ocasião, parou em frente à nossa casa.

Acho que ela não tinha nem dez anos e já toda sujinha, perambulava pelas ruas pedindo jornais, caixas de papelão e outras embalagens.

Talvez o que a motivasse estancar ali, naquela manhã, fosse a queda de uma das rodas da carroça que saira do eixo.

A menina era filha de catadores de lixo e irmã de numerosos irmãos. Quando estacionou seu veículo defronte nossa residência ela procurava uma sombra onde pudesse descansar e recolocar a rodinha no lugar.

Depois que encostou ali frente ao nosso portão ela pediu um copo de água; logo após expressou sua vontade de usar o banheiro.

Ao passar por nossa cozinha ela observou a mesa que continha ainda a louça e a sobra dos alimentos do café da manhã. Quando percebemos que a criança fixou o olhar sobre os alimentos, intuímos a sua fome e então a convidamos a sentar-se e a tomar uma xícara de café.

Toda embaraçada ela se acomodou na beirada de uma cadeira; a ela servimos leite com Toddy e pão com margarina.

A avidez da garotinha ao deglutir aquelas coisas impressionou-nos. Ela não mastigava e quase engasgou tamanha a voracidade com que enfiava o pão goela abaixo.

Sentado ao seu lado perguntávamos onde morava e quem eram seus pais. A sofreguidão impedia que ela falasse qualquer coisa e qual não foi a nossa surpresa quando, de repente, a menina vomitou sobre a mesa e evacuou ali mesmo, no chão da cozinha.

Tentando controlar a situação levei a jovem ao banheiro onde a fiz lavar-se. Mais tarde, tendo consertado a rodinha e no comando da sua carroça, ela continuou a lida de recolhimento de lixo.

Hoje em dia ela já não mais vagueia pelas ruas. Está casada e tem três filhos.