“Eu precisava mesmo ver você de perto, sentir o seu perfume, o seu hálito, o calor da tua pele, tocar os seus cabelos. Mas você sabe como é... a turma queria fazer antes o serviço lá no campus da escola, e eu não pude falar não. Eles já tinham tudo preparado. Bastava só uma banana e os limites estariam estilhaçados. Nos reunimos naquela noite anterior ao dia do pagamento dos professores e funcionários. A gente tinha de chegar ao caixa eletrônico no máximo até um dia após o depósito dos salários. No boteco, a gente não falava muito sobre o assunto. Já estava todo mundo inteirado. A gente ia chegar e mandar ver, sem dó. Eu tinha comigo um fuzil e uma P 40; os manos portavam uma metralhadora cada um. O carro que “fizemos” dois dias antes, já estava com placas frias. O tanque cheio; a gente só esperava o tempo passar. Naquela agonia da espera eu só pensava em você. Eu me lembrava da tarde em que você, ao chutar uma bola, lançou também o sapato que acertou o nosso cachorro. O coitado, assustado, quase caiu na piscina. Num domingo à tarde, você estava maravilhosa de roupão branco, testando vestidos para ir ao teatro à noite ver aquela peça. Eu nunca gostei desse negócio de teatro, mas você gostava... Os teus olhos verdes me fascinam. Fico doidinho. Me faz lembrar do mar, da água salgada, do sol, da cerveja, do bate papo divertido. Enfim... Saimos do mocó no momento certo. Só um detalhe me chamou a atenção: foi quando ao virarmos a esquina, daquela rua que leva à entrada do campus, notei um pote assim, deixado na sarjeta. Achei esquisito, estranho, mas os manos não se ligaram na parada. Fomos em frente. Chegamos ao caixa e detonamos o ambiente. Foi tudo meio rápido. O lugar ficou bem quente e empoeirado. Lembro que os tiras chegaram de surpresa. Era só bala que voava pra todo lado. Foi triste, muito triste. Quando você vem me visitar?”
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terça-feira, 7 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
O Anel
Tuto Moleira, naquela tarde de domingo, tinha acabado de sair da sessão vespertina do cinema em que vira todo empolgado, El Cid.
Moleira, agoniado pelo calor, tentava agora desabotoar a gola da camisa. Soltou os dois primeiros botões e soprou o peito buscando alívio.
A cena em que El Cid é flechado e morre, comoveu-o sobremaneira. Quando o pessoal, por ele liderado, coloca-o já morto, na sela do cavalo branco, soltando-os pela praia, pra assustar o inimigo, comove o público, Moleira ensaia um princípio de aplauso e considera que foi jogada de mestres.
Moleira achava, não sabia por que, mas achava que deveriam inserir um dromedário na cena. Talvez a figura dum camelo velho pudesse dar novo enfoque às imagens, ebulindo outras sensações.
Durante a caminhada, de volta pra casa, Tuto avistou o Chuma ao longe, e como sabia ser a figura mais chata do que casamento de filho de político lalau, nos arrabaldes de cidade interiorana, atravessou a rua.
Quando cruzou com o elemento, ergueu estrategicamente a cabeça, fingindo mirar um ponto vago lá no céu.
Mas o Chuma é o Chuma, minha amiga. Ele viu o Tuto e compreendeu aquela tática pobre de despistamento. Para provocar, reforçando ainda mais, sua fama de maçante, transpôs a rua, chamando em altos brados, o nome do professor Moleira.
Igual ao cachorrinho intimidado que, diante duma ventania atordoante, procura colocar entre as pernas, o coto do rabinho, Moleira se encolheu todo. Achou que se deixasse o arrazoador falar sem oposição, logo se cansaria, deixando-o em paz.
Mas, ô pai que carão! O prazer de ruminar as cenas fresquinhas do filme recém-impresso na cachola, se transformou em horror, causado pelo alarido retumbante daquele chato de galochas.
Será que esse tal de Chuma desejava chamar a atenção da vizinhança, naquele final de tarde, quando estava quase na hora de começar o programa da Jovem Guarda, por sadismo puro, ou seria a surdez, a verdadeira causa de tamanho remoinho verbal?
Como se expelisse uma lufada de fumaça pela bocarra arreganhada, Chuma exteriorizou:
- Moleira!
O eco vibrou os tímpanos da galera silente, contida defronte os televisores. Os cães ladraram e foi pro espaço, por deserção, o desejo do pobre Moleira de passar despercebido.
- Veja como sou um homem de sorte. Achei um anel de ouro puro, ali no chão. Não sei quem é o dono. Aliás, qualquer um pode se apresentar, e dizer ser o proprietário. Na dúvida, não o entregarei pra ninguém. - a voz forte do Chuma, tinha o vigor dos quarenta.
Naquele momento, Moleira imaginou ser aquela chatice toda do Chuma, causada pelo desconhecimento das técnicas específicas convertedoras dos maus humores do dia-a-dia, em outra coisa que não a atormentação do próximo. Ou seja, o Chuma minha amiga, era chato porque era burro. Não sabia nada.
O infeliz não conhecia, por exemplo, como transformar ódio e inveja, nele corriqueiros, em sons sertanejos.
E tome conversa:
- Em outra ocasião achei, (vá vendo, como sou dado à sorte), um anel, também de ouro. Mas havia uma pedrinha de rubi incrustada nele. Estava caído dentro dum tanque de lavar roupas lá no apartamento da mãe da aniversariante. Quando coloquei a bijuteria em cima da mesa da sala, uma espalhafatosa, nervosa ao procurá-lo, soltou sem querer, um pum sonoro. Depois que as comadres todas cessaram a conversa e frias, olharam pra moçoila, ela apanhou o ornato, apontou para mim e disse: foi ele. Daquele dia em diante ganhei a injusta má fama de apropriador.
Moleira desvencilhou-se do adversário e com uma desculpa qualquer se despediu. Saiu andando e pode ver, de longe, quando o chato chutou um pacote. Cheio de curiosidade, Tuto parou.
Disfarçando ao máximo, pra não ser notado pela tiririca, pode observar que o Chuma ergueu do solo aquilo que parecia ser um malote.
O abobamento do Moleira foi total. Ele viu perfeitamente quando o chatíssimo abriu o embrulho e dele caíram dezenas de pacotes de células de cem reais. Aquilo tudo era dinheiro!
- Parece que tem um milhão de reais aqui, mano! - anunciava, às paredes, o eufórico Chuma.
Um pensamento passou rápido pela cabeça do Tuto: “se o atordoante era insuportável, nesse estado de miséria plena, imagine o que seria dos seus desafetos, se consolidasse incontestável, a fortuna que lhe pintava agora”.
28/08/2004
Usinadeletras.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Arruda se defende com ironia
O governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, na primeira reunião com seus liderados, na terça-feira (5/1), na sede do governo, defendeu-se das reações provocadas pelas publicações dos vídeos, em que aparece recebendo propina, do secretário Durval Barbosa. Com ironia Arruda diz ser “culpado até da Mega-Sena’.
Esse mais novo episódio da corrupção, observada entre políticos brasileiros, foi trazido à luz, no dia 27 de novembro, pela operação Caixa de Pandora da Polícia Federal, e foi batizado de Mensalão do DEM.
No inquérito policial, José Roberto Arruda é indicado como o mentor de um esquema de corrupção e distribuição de dinheiro público, entre os deputados distritais e aliados.
O encontro com o secretariado, em que não foi permitido fazer perguntas, serviu para informar que as contas do governo estão em dia e que nenhuma obra pública estaria parada. A assembléia legislativa do distrito federal, a quem cabe julgar os pedidos de impeachment, feitos contra os atos ilícitos, flagrados pelas câmeras de Durval Barbosa, é composta por deputados aliados ao governador.
Notícias publicadas no jornal O Estado de S. Paulo reportam que na cidade de Águas Claras, próxima de Brasília, a sogra, a mulher e os filhos de José Roberto Arruda, no período de três anos, adquiriram aproximadamente R$ 1,3 milhões em imóveis.
Ainda conforme O Estado de S.Paulo, a sogra teria comprado um apartamento de 93m2 e uma quitinete avaliada em R$ 140 mil, no mesmo prédio onde a mulher do governador também obteve um apartamento.
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
É restituindo que se ganha
O governador do distrito federal José Roberto Arruda dentre outros políticos brasileiros, foi filmado recebendo dinheiro desviado da administração pública. As cenas do desaforo foram divulgadas para o Brasil e o mundo todo. Como é praxe, nas democracias, o indigitado tem amplo espaço e tempo para se defender.
Até agora, no entanto, esse homem que aparece recebendo um fardo de reais, não conseguiu justificar a insolência. Ameaçado de expulsão do DEM o partido que o agasalhava, ele se desfiliou antes, preparando-se para uma nova aventura política em 2014.
Os pedidos de impeachment do flagrado, elaborados por seus adversários, dirigidos à assembléia legislativa do distrito federal teriam, em tese, poucas chances de prosperar em virtude de ser a atual gestão composta por seus correligionários favorecidos.
Das 11 proposituras de destituição oito já foram arquivadas, tendo o astuto político afirmado que deseja chegar ao fim do mandato. Quando nega a veracidade dos fatos filmados, o recebedor garante também que a sociedade brasileira não viu nada daquilo que foi exibido, e que as cenas não passariam de montagens feitas por opositores.
A Polícia Federal, no entanto, demonstra que as imagens são diretas e não passaram por cortes ou montagens. Tomado de muito bom senso e com aquele espírito de que “quem não deve não teme” o senhor José Roberto Arruda poderia renunciar ao cargo de governador e devolver o dinheiro, provando com isso as injustiças que cometem contra ele.
Só a devolução daquele pacote juntamente com um pedido de desculpa seria o suficiente, para quem sabe, provar a boa fé do grande e honorável José Roberto Arruda. Ninguém falou nada sobre outros embrulhos supostamente agarrados durante todos esses anos de vida política.
Veja como pode ser ilibada a conduta do filmado recebendo a hipotética propina: ele se propõe, inclusive a mudar algumas regras, usos e costumes relacionados ao exercício da política. Mas não é impressionante?
E olha que o renunciante atribuiu todas aquelas motivações, que levaram à feitura das películas, aos interesses contrariados, das pessoas que teriam sido demitidas durante o seu governo.
Pelo raciocínio do acusado não existe o dinheiro que ele também não teria recebido. Sem tecer qualquer consideração de que a verba pública enrustida, em última instância, se destinaria aos benefícios da população pobre e, que o mexer nos valores dos carentes dá um azar do inferno, conviria crer que a restituição equivaleria a ganhar na mega-sena.
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