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quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Transplante de Língua





                                                Hoje é o dia do Rock. Agora, você já imaginou um roqueiro sem língua? Pois olha que isso é difícil de acontecer. Nos dias atuais nada é impossível.
                    Quando eu era criança um dos nossos vizinhos, morador do casarão da esquina tinha três filhas que viviam subindo na mangueira e goiabeira do quintal.
                    Elas não se importavam muito com o que poderia ver o garoto, que ficava em baixo, olhando pra cima enquanto elas, de saia, capturavam as frutas.
                    Não afirmaríamos que havia nelas a intenção de mostrar as calcinhas, porque quando percebiam que as olhava, com muitíssimo interesse, logo prendiam as vestes entre as pernas.
                    Mas numa tarde, uma delas subiu na goiabeira e não se sabe de que jeito, caiu lá de cima, batendo o queixo num dos galhos. Como a menina estava com a língua entre os dentes, no choque quase houve a mutilação.
                    O órgão ficou seguro por um fiozinho que possibilitou a sutura e a total recuperação, meses depois.
                    A cirurgia foi tão bem feita que era quase imperceptível a cicatriz, mesmo quando olhada de perto, no espelho, que havia sobre a pia do banheiro.
                    As suspeitas médicas de que a jovem teria contundido o baço ou fraturado a clavícula foram logo afastadas, pois os danos do embate se concentraram na boca.
                    Além dos cuidados corriqueiros que se deve ter com ferimentos, a moça precisou usar, por algum tempo, uma bolsa de gelo sobre a face.
                    Quanto ao roqueiro sem língua isso não ocorreria, pois se há transplantes de rosto e também de pernas por que não haveria de línguas?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Motorista de Kombi

Por Fernando Zocca

Olha a ironia dos adversários do Van Grogue: quando souberam que seu pai passaria por uma cirurgia cardíaca deixando, portanto de trabalhar por um tempão, providenciaram pra ele, o pinguço, um serviço de motorista de Kombi.

A perua era daquelas bem velhas em que nem os freios funcionavam direito. A partida, pela manhã, era um inferno. Gastava-se dezenas de minutos tentando fazer aquele “desacordo” pegar.

O cacareco passava a noite, parada na rua, defronte a casa alugada. Vanzinho de Oliveira rezava, durante a madrugada, para que os bandidos vizinhos não a detonassem de uma vez por todas.

Por sorte esse temor do Van de Oliveira não se concretizou. Ele acordava cedo, entrava na bagaça, girava a chave no contato e tentando, tentando, só se tranqüilizava depois de dez minutos, quando o motor funcionava.

No quarto, no andar de cima, repousava o velho pai do Van de Oliveira. Ele acabara de passar por uma intervenção cirúrgica e tinha os ossos do tórax costurados com fios de aço. Os ferimentos nos músculos e pele do peito eram costurados por fios pretos cobertos com gaze.

E toda a manhã quando Groguinho punha a sua Kombi pra funcionar, o velhote acordava lá no andar de cima e gemia sem parar.

- Ai, ai, pelo amor de Deus! Pisa nessa bosta de acelerador que ela pega! – gritou certa vez o papai do Van.

Pois foi assim mesmo que o então garoto, aprendera que umas bombeadas antes e durante o acionamento do motor de partida, seriam propícias ao funcionamento da bexiga.

O tal trabalho que uma das irmãs do pai do Grogue arrumara pra ele, o menino vadio, maconheiro vagabundo, sem-vergonha e mau caráter era o de transportar as lavadeiras de um centro comunitário da periferia.

As tais lavadeiras depois de lavar e passar as roupas das usuárias do serviço, tinham de entregá-las de volta. E ai é que entrava o nosso Van de Oliveira Grogue.

Bom pra encurtar a conversa, é bom que se diga, rapidamente, que o tal motorista não ficou muito tempo no emprego.

Logo que suprimiram o cardiotônico Kombetin, usado pelo pai do Grogue, o nosso motorista foi dispensado do tal emprego. E isso sem que recebesse nenhum direito trabalhista.